Viagem

Por: Roberto de Paula Barbosa

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Há alguns dias fui visitar minha filha que mora em Londrina, no Paraná, que dista de Franca uns 560 km. Quando, em conversa com um amigo, ele perguntou-me quanto tempo eu demorava ir de carro. Mentalmente fiz uns cálculos e disse que, em média, eu levava umas sete a oito horas, pois eu sempre dou umas duas a três paradas. Admirado, disse que era muito tempo para dirigir e que eu deveria ir de ônibus ou de avião, pois seria bem mais rápido.

Esse papo fez com que eu voltasse meio século de minha memória e topar com uma viagem que fiz, juntamente com meu colega e amigo H.C.Spina, a partir de Toledo, no Paraná. O Spina havia saído de férias e estava destinado a gozá-las com seus familiares em Taiúva, uma aprazível cidade entre Bebedouro e Jaboticabal. Eu vim, aproveitando algum fim de semana prolongado, para visitar meus familiares e a namorada que, acredito, estava consumida pela saudade, assim como eu.

Calculamos o trajeto certinho: tomaríamos o avião, um moderno Douglas DC3 da Sadia Transportes Aéreos em Toledo, que faria uma escala em Maringá, onde haveria troca de aeronave, e seguiríamos para Londrina, onde pegaríamos o ônibus da Garcia para Ribeirão Preto. Aí, de ônibus, cada um procuraria seu rumo.

O avião saia de Concórdia, Santa Catarina, fazendo escalas em muitas cidades, e nós sempre dizíamos que ele vinha recolhendo latões de leite pelo caminho. Como não havia sistemas de comunicação, exceto, talvez, o rádio, os voos não eram reservados. Podia-se comprar a passagem, mas sem reserva, ou então adquiri-las na hora, se houvesse vagas.

Nós, eu e meu amigo, precavidos, já havíamos comprado as passagens, sem reserva de lugar, naturalmente. Quando a aeronave aterrissou no aeropasto, como nós o chamávamos, pois não era asfaltado e sempre alguém ficava de vigília para espantar algum animal de quatro pernas que estivesse pastando nos seus arredores, havia apenas um lugar para o voo. O piloto, vendo a cara dos dois únicos passageiros a embarcar, desesperados para ver quem iria, resolveu embarcar os dois, pois havia uma pequena poltrona junto ao banheiro e que estava cheio de pacotes. Acomodados, rugiram os motores rumo a Maringá.

Chegando ao seu destino, deveríamos trocar de avião, pois este iria para Curitiba e nosso destino era Londrina. Acontece que a pontualidade não era o forte naquele tempo, e acho que ainda hoje, apesar de toda a tecnologia, é falha, e o avião chegou com apenas um pouco mais de hora de atraso. O outro voo já havia partido e ficamos a ver navios, ou melhor, um imenso vazio no aeroporto. Como havia diversos outros passageiros com destino a Londrina, sem mais aeronaves naquela tarde, a Sadia ofereceu hospedagem até o dia seguinte, mas não garantiria lugares para todos.

Formamos um grupo de cinco pessoas e contratamos um taxista - um negro alto, magro, olhos grandes e muito simpático - para nos levar até Londrina. O seu automóvel era um Ford 1948 com cara de poucos amigos, mas não havia outra opção para chegarmos antes das 19 horas que era o horário do ônibus da Garcia para Ribeirão Preto. Guardadas as bagagens no porta-malas do Fordão – meu amigo carregava uma mala enorme, pois acredito que ele estava levando toda a roupa para a mãe lavar, já que estaria de férias – ocupamos nossos lugares e partimos. Naquela época a rodovia Maringá a Londrina já era asfaltada, mas de pista única, mal conservada e com sinalização precária.

O entardecer estava claro e bonito e seria uma ótima viagem. Só que a velocidade do carro, que quase beirava a maioridade de 18 anos, não era a de um bólido, além da folga na direção que o motorista teimava em girar quase uma volta para ficar sobre a pista. Quando havíamos rompido mais ou menos uns oitenta quilômetros, a noite fechou e a visão encurtou, além do ofuscamento dos faróis contrários, arregalando ainda mais os olhos do nosso condutor. Para encurtar a conversa, logo em seguida o motorista parou no acostamento e disse que um pneu havia furado.

A esta altura eu e meu colega já estávamos vendo o ônibus da Garcia saindo sem seus passageiros. O Spina então sugeriu pegarmos uma carona e logo em seguida estendeu o braço e, por sorte, parou um Fusca com apenas um passageiro. Explicamos nossa agonia e eles, solícitos, informaram que iriam apenas até Cambé, mas que nos deixaria num ponto de taxi e que dali até à rodoviária era um pulinho. O Spina pegou sua malona, conseguiu encaixá-la atrás do banco dos passageiros e partimos.

O motorista, jovem audaz, condoído pela nossa situação, acelerou sua máquina no limite, o que nos deixou muito apreensivos, pois corríamos o risco de, ao invés de visitarmos nossos parentes, iríamos tomar a bênção do Papai do Céu ao vivo (figura de linguagem). Mas Ele, o Papai do Céu, nos protegeu e porque, talvez, não nos quisesse dar antecipadamente suas bênçãos, chegamos ilesos ao ponto de taxi na cidade de Cambé. Transladadas as bagagens, fomos diretamente à rodoviária de Londrina.

Urubu, quando de azar, o de baixo mela o de cima. O ônibus da Garcia já havia partido há mais de uma hora. Procuramos saber se havia outra empresa ou outros horários, mas somente no dia seguinte, pela manhã, havia um ônibus da Empresa Silva, que fazia um trajeto diferente até Ribeirão Preto. Adquirimos as passagens e pernoitamos numa pensão ao lado da rodoviária.

De manhã, bem cedinho, embarcamos num ônibus idoso, que passava por Assis e cuja estrada era de terra. Comemos bastante poeira e conhecemos diversas cidades pelo caminho, pois a cada uma havia a parada. Resumindo, chegamos a Ribeirão Preto mais ou menos às 19 horas. Meu amigo conseguiu condução até à sua Taiuva e o último ônibus para Franca havia partido às 18 horas. E agora? Alguém mais iluminado e informado, que também iria a Franca, lembrou-se de que o trem da Mogiana sairia às 21 horas. Então, de taxi, fomos até à estação. Achei esta opção melhor, pois de Ribeirão a Franca a rodovia era parcialmente de terra, assim eu não comeria poeira.

Assim, após mais ou menos 29 horas de andanças, correrias e demais peripécias, estava eu comodamente sentado em um banco duro de madeira em vagão da composição tocada à lenha e muita fumaça, mas, pelo menos, estava a caminho de casa. Não comi poeira, mas inalei muito fumo. Finalmente, após um trajeto que demorou apenas três horas, desembarquei à meia-noite na bela terra do Capim Mimoso, que eu adotei de coração.


 

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