Individualidade sólida

Por: Ligia Freitas

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Modernidade à vista. Cuidado!

-Mãos ao alto, você está rendido. Disse o celular.


É queda, é lama, é ele quem faz a cama.

Quero a grama verde do vizinho.

Quero esse corpo, esse cabelo,

Essa inteligência, esse dinheiro.

Por onde anda o meu lápis vermelho?


Quero grama de verdade.

Para me deitar, sem pedir passagem.

Quero terra batida ou folhagem,

Para me jogar até dar vertigem, até onde tiver coragem.

Mas será que a grama daquela atriz é de verniz?

Será que ela chora ou vive por um triz?

Quero ver relacionamentos e não entroncamentos.

Chega de monólogos repetitivos, num cotidiano premeditado.

Chega de silêncio e de mãos ocupadas.


Quero conversas altas e tortas

Quero a casa cheia, quero olho no olho, mão com mão, boca com boca.

Quero ouvir um grito, um gemido, um apito.

Abaixo o silêncio de qualquer inocente,

Prefiro a inquietude ao café com leite,

O perfume à dor de um ausente.


-Sr. celular, você voltou!

Quero lhe apresentar um amigo.

Conversa comigo, que eu não converso contigo,

Não conversa comigo, que eu converso contigo.

Vem cá, pegue na minha ocupada mão,

Dê notícias do mundo, da vida, da família.


Meu Deus, que tiro foi esse?

Será que vem do alto da favela, onde tem chuva de balas e panelas?

Ou será que vem da realeza, da fartura, da sobremesa?

Deixe-me aqui, preciso pensar na minha individualidade sólida.

Tragam meus óculos escuros,

Não quero mostrar minha cara insólita.

José morreu?

Mas quem é José?
 

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