Onde as flores não murcham

Por: Sônia Machiavelli

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Assim como François Villon perguntou num poema famoso “onde estão as neves de outrora?”, para traduzir seu espanto diante da efemeridade da vida humana, eu me indagava dias atrás, voltando para casa, “onde estão as flores do passado?” Refletia  sobre a fugacidade de nossa passagem pelo planeta, mas também recuperava pelo milagre da lembrança as flores que minha mãe cultivava nas casas onde moramos. 
 
Eram dálias de todas as cores, especialmente umas bem grandes, alaranjadas, reunidas em ramalhete para eu  levar à  professora no grupo escolar. Veludos que as crianças gostavam de acariciar porque eram macios grenás. Copos-de- leite de folhas grandes, vistosas, brilhantes.  Margaridas replantadas em agosto para que suas flores brancas de grande miolo amarelo pudessem ser levadas nos novembros aos túmulos dos finados. Isso tudo no quintal, entre touceiras de perfumadas ervas-cidreiras, rastejantes hortelãs, melissas delicadas, losnas amargas,  tomateiros amarrados em estacas, pés de chuchu que forneciam frutos o ano inteiro- para nós e para os vizinhos, porque as ramas se estendiam pelo muro e seguiam seu caminho do outo lado. Se houvesse espaço, vingavam uns pés de milho cujas espigas serviam para enriquecer a dieta e também para que minha irmã e eu brincássemos com bonecas loiras e  ruivas. Permanecia oculto a quem passava pela rua esse conjunto de plantas  para consumo interno, porque as casas que habitamos eram muito modestas, a fachada ficava rente à calçada.
 
Tais espaços botânicos que sempre estiveram comigo, assumiram valor ainda maior quando há alguns anos fui a Giverny e, depois de visitar os jardins, o lago, a ponte, as ninfeas, vi  atrás da casa de Monet, bem à saída da cozinha magnífica, espécies vegetais misturadas, lilases encostados em roseiras, gladíolos em par com hortênsias, temperos diversos povoando um mesmo canteiro- o que permitia ao pintor, que gostava de cozinhar, ter à mão a qualquer hora seu “bouquet garni”. Então entendi vagamente que  subjazia um motivo estético, além do prático, para minha mãe criar seus jardins selvagens. Havia o olhar da artista, daquela  que desenhava e pintava tão bem e deveria se deixar guiar pelo desejo de preencher com cores o vazio representado pela terra nua.  
 
Com sua mão delicada espargia sementes fininhas sobre  pequeno canteiro, depois das chuvas de março. Tínhamos certeza de que no meio do ano aquele  cantinho estaria por inteiro colorido pelo amarelo dos cravos dobrados, assim como sabíamos que as folhas verdes do bico-de-papagaio lá do fundo da horta começavam a ficar vermelhas em abril  para se incendiar em julho.  Ela cavoucava, adubava, afofava a terra e falava: “As plantas agradecem os cuidados, mas tudo tem seu tempo; não adianta querer palma-de-santa-rita em janeiro, azaleias em fevereiro, bocas-de-leão em outubro, muito menos flor-de-maio em dezembro.” E, não sei se de modo factual ou metafórico, sentenciava: “Amor-perfeito é difícil demais de cultivar; não pode esfriar um pouco que ele não aguenta, murcha, morre”.   
 
Imersa nesses devaneios eu descia a avenida Chafick Facuri, na direção contrária à qual normalmente trafego porque resolvi diversificar trajetos para estimular meu cérebro. E a cada quadra o refrão de Villon me voltava modificado pela experiência que substituía neve por flores: “Onde estarão aquelas flores que não encontro mais em lugar algum, nem nos canteiros públicos nem nas floriculturas?”  Foi quando vi na esquina da rua Pedro Lemos dois  grandes  buquês  que milagrosamente pareciam  me responder da calçada: “Estamos aqui! Somos os veludos cor de vinho, os cravos amarelos, as humildes azedinhas”.Plantadas por moradora zelosa, talvez a proprietária  da pequena loja da esquina, elas me acenavam com o milagroso poder de mobilizar minha alma. Parei o carro metros adiante, voltei, fiquei a admirá-las, fascinada pelas cores e formas banhadas pela luz daquele dia cristalino, quando uma senhora de cabelos brancos, que fazia sua caminhada aparentemente rotineira, parou ao meu lado e disse: “Eu também acho lindas 
essas flores antigas. Todo dia paro aqui para observá-las. Sinto uma calma... Sei  que essa beleza é passageira, daqui uns dias elas vão murchar. E então, só no ano que vem... Mas logo eu vou poder olhar para aquelas primaveras da casa de portão azul ali adiante- está vendo? Daqui a alguns dias elas começarão a ficar roxas”. Era uma poeta, uma filósofa,  traduzindo sentimentos delicados e pensamentos profundos sobre beleza e tempo numa linguagem corriqueira mas rica em sentidos. 
 
Fotografei os dois buquês,  voltei ao carro com o fragmento “sinto uma calma...” colado na mente. De imediato o havia associado a uma reiterada frase de minha mãe: “olhar as flores acalma minha alma”. Segui meu caminho pensando que, afinal, depois de tanto tempo,  havia atinado com um motivo mais profundo a explicar o gosto dela pelas flores e também este meu interesse por elas.  Cheguei  à conclusão de que a consciência de que tudo é previsível na natureza  nos reconforta diante da odisseia que é toda vida humana, onde a única certeza é a incerteza dos dias. 
 
Obrigada, minha mãe. Continuo aprendendo contigo ao revisitar nosso passado e vislumbrá-la no jardim onde  prevalece apenas uma  estação- a da Memória, onde as flores não murcham.

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