Lá no lugar distante

Por: Angela Gasparetto

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Onde você se escondeu? Foi no céu escuro pontilhado de estrelas?  Ou na lua que aparece meio tímida e que olho da janela do meu quarto? Sonhei contigo noite passada. Estava com aquela blusa branca de florezinhas rosa e uma bermuda de cor indefinível. Senti sua presença solidária. Seu calor e seu amor constante.
 
Neste sonho, juntas abaixávamos para colocar algo pesado no porta-malas como sempre fazíamos, uma auxiliando a outra. Cabeças próximas, corações entrelaçados. Ainda no sonho, neste momento, você me olhou nos olhos e me questionou por que eu não estava usando uma linda saia indiana igual às que minhas irmãs usavam.
 
Eu disse que elas haviam comprado apenas para elas. Seu rosto se ensombreceu e com olhar de reprovação disse que devíamos ser todas iguais, e o que uma possuía, todas as outras também deveriam poder possuir. Ela sempre lutou para este valor de merecimento ser igualitário na família.
 
Naquela época que você vivia, eu não tinha noção do quanto o seu amor era importante. Não só o seu amor, mas sua presença, seu apoio e principalmente sua isenção de sentimentos.
 
Choro lágrimas de sangue para ser mais lugar-comum, na falta de uma expressão que possa transmitir o que realmente sinto.
 
Dirigia pela cidade enquanto você me ouvia; eu falava , falava, falava dos meus sentimentos, das minhas dores e você me ouvia. Nunca cansava.
 
Lembro de você segurando minha mão, sinto os seus dedos curtos, suas mãos quente sempre cheirando a alho e cebolas, porque a nossa cozinha era sua vida.  Na mesa do almoço, enquanto comíamos, somente nós duas, eu desabafava toda a injustiça que por ventura sentia no trabalho, no amor ou em outro campo. Você ouvia concordando comigo, me apoiando, me dando conselhos tão sábios. Nunca se cansava.
 
Quando estava agonizando no hospital, eu ainda acreditava que viveria. Seus olhos se encontravam com os meus, onde eu tentava inutilmente disfarçar as lágrimas que brotavam sem parar e seu braço se apoiava no meu pescoço como um sinal de despedida.
 
Lá no lugar distante em que você se encontra, precisa haver uma porta que se conecte comigo e que olhe por mim. Porque algumas vezes me sinto absurdamente sozinha. Principalmente nesta época do ano.
 
Lá onde os gramados devem ser verdes, as árvores floridas e os riachos mansos, você deve se sentar à sombra com minha avó, meu pai, meu tio e todos os que se foram para poder conversar sobre os dias idos.
 
Espero que nestes momentos eu esteja sempre junto contigo, mãe.

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