Violência contra mulheres

Por: Sônia Machiavelli

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Sou um tanto avessa à leitura de publicações acadêmicas. Em primeiro lugar, não me seduz a linguagem por vezes muito técnica e destituída de elegância da maioria delas- são poucos os autores que, como Freud no passado e Hawking no presente, alcançam traduzir de forma literária seu saber científico. Em segundo, o excesso de citações me deixa exasperada porque, em geral, mal leio uma, deparo-me com outra, em sequências que, muitas vezes, me obrigam a retomar o parágrafo inicial a fim de não perder o fio condutor. Por fim, há aqueles casos onde não percebo um sentido prático para o que leio e me pergunto onde vão morar tais livros a não ser nas estantes das bibliotecas específicas. Devo dizer porém que reconheço a relevância da pesquisa e sua importância na carreira do professor e na vida universitária. E que há livros desta área que me surpreendem e cuja leitura gratifica pelo discurso mais acessível e por revelar um conteúdo que pode mobilizar a sociedade, apontando caminhos de evolução.

Um desses acabei de ler nesta semana. Falo de Violência contra Mulheres- direitos políticos em perspectivas multidisciplinares, publicado pela Editora UFG (Universidade Federal de Goiás). Sua organizadora é Tatiana Machiavelli Carmo Sousa , psicóloga pela Universidade Federal de Uberlândia; mestre e doutora em Serviço Social pela Unesp/campus de Franca; professora adjunta do Curso de Psicologia e Programa de Pós-Graduação em Psicologia pela Universidade Federal de Goiás, coordenadora do projeto de extensão “Violência dói e não é direito: (des)construindo conceitos”.

Logo de início chamou minha atenção a primeira orelha, onde a organizadora, com a lúcida intenção de preparar o leitor para o que vai encontrar nas 240 páginas seguintes, avisa que “o Brasil encontra-se nos principais rankings de violência contra mulheres, revelando que, embora as mulheres sejam a maior parte da população, estejam em maior número nos bancos das universidades e contribuam com o orçamento familiar, o exercício de seus direitos ainda é limitado. Essa realidade implica na vivência de múltiplas violências (sexuais, físicas, morais, psicológicas, patrimoniais, entre outas), tema abordado pelos textos que constituem este livro.”

Os textos são dez, assinados por “autoras/autores, estudantes e professoras/professores vinculados às áreas de Psicologia, Serviço Social, Fisioterapia, Direito e Educação, partindo de distintas experiências acadêmicas em universidades públicas como a Universidade Federal de Goiás, Universidade Federal de Uberlândia, Universidade Estadual Paulista ‘Júlio de Mesquita Filho’, Universidade de São Paulo, Universidade Federal de São Paulo e Universidade do Estado do Rio Grande do Norte”. Discutem as peculiaridades de tal fenômeno nos presídios, nas empresas, no Centro de Defesa da mulher, nos hospitais, nas escolas a partir de diferentes metodologias como o teatro, a música, os recursos midiáticos, as pesquisa e a contação de estórias”.

O primeiro tem por título “Gênero ,Violência e Interseccionalidade: a vertente de um coletivo feminista”. Nele, Shara Freitas de Sá, Lucas Gomes de Carvalho e Tatiana Machiavelli, depois de contextualizarem a trajetória do feminismo em nosso país, exibem um estudo de caso sobre coletivo feminista de uma universidade pública do sudoeste goiano. No segundo, “Igualdade de gênero e empoderamento das mulheres: enfrentando a violência doméstica por meio dos projetos de extensão universitária”, Soraia Veloso, que fez parte da equipe de redatores do jornal Comércio da Franca no final dos anos 90, relata seu empenho em levar a uma comunidade do interior mineiro informações sobre a Lei Maria da Penha e a prevenção da violência contra a mulher. Substancioso e detalhista, mas não hiperbólico, o texto estimula reflexões a respeito do alcance das políticas públicas em favor da autonomia feminina e da proteção das mulheres vitimizadas não apenas por homens violentos, mas também por séculos de preconceitos e ignorância. Angelina M. Marques, Fernando A. Vialie e Flander A. Calixto adentram o espaço da segurança pública no terceiro capítulo- “Omissão e morte no caminho das mulheres: a violência na região do Pontal do Triângulo Mineiro”, onde questionam as limitações e os conflitos jurídicos na implementação (e exegese) da Lei Maria da Penha em um município mineiro. Esta mesma lei, de grande impacto no Brasil, é retomada no capítulo seguinte, ”Concepções de homens autores de agressão sobre a Lei Maria da Penha”, no qual Raiane Silva Marques e Tatiana Machiavelli desvelam o pensamento machista que está de tal forma entranhado na mentalidade e cultura que, se por um lado causa perplexidade, por outro explica atos abomináveis. É um dos pontos altos do livro.

Outro momento expressivo na obra é o que vem no ensaio seguinte, “A condição da mulher presa: uma realidade duplamente violenta”, de autoria de Amanda Daniele Silva e Cirlene Hilário da Silva Oliveira, que revelam com fatos e números as mazelas de um sistema prisional que criminaliza duplamente as mulheres. Na sequência, instigante pelo que provoca em temos semânticos, “Sou mulher e não serei outra coisa- uma leitura dramática pra discutir as violências sofridas pelas mulheres”, de Érika Cecília Soares Oliveira, começa por convidar o leitor a refletir sobre a língua e sua relação com o gênero. Um exemplo que ilustra preconceito é o uso da terceira pessoa plural no masculino (eles) abrangendo o feminino(elas); outro, inferir que o masculino venha sempre antes do feminino nas frases de sujeito plural -algo que permanece contaminando o senso comum. Mas vai além e se aprofunda ao questionar as políticas públicas no que tange a reconhecer e validar o papel de profissionais da área da Psicologia na atuação junto a mulheres vítimas de violência. A primeira parte do título (“Sou mulher e não serei outra coisa”) é o nome de um roteiro que em oito páginas transfere para a dramaturgia o que foi registrado de forma discursiva, exercitando um tipo de intertextualidade rica e criativa.

“O assédio sexual como expressão da apropriação individual e coletiva dos corpos e da sexualidade das mulheres” nomeia o texto conjunto de Maria Ilidiana Diniz e Fernanda Marques de Queiroz, autoras que tratam de um assunto que ganha na contemporaneidade cada vez mais luz para o discernimento: o espaço do trabalho, onde a violência que se abate sobre as mulheres pode se manifestar em formas que vão das mais sutis às mais óbvias. Já Thais Rocha Assis, Ana Laura Saraiva Messias e Nathany Souza Schafauser abordam a violência que se corporifica num dos momentos da vida onde a mulher se encontra mais sensível e vulnerável : o da gestação e o do parto. Depois de um estudo sobre a forma como as puérperas vêm sendo vistas e tratadas no Brasil ao longo do tempo, as autoras registram os tipos de violência que lhes foram revelados durante entrevistas com gestantes e parturientes, concluindo que encontraram vários relatos nos quais ficava evidente que as mulheres “não sabiam que se tratava de uma violência”. Dois deles, transcritos em primeira pessoa, são perturbadores pelo que revelam de uma violência que permeia não só gestos e atitudes, mas também palavras. Este nono capítulo tem o título de “Violência contra a mulher no contexto do pré-natal, parto e nascimento: a violência obstétrica”.

Fecha o livro o capítulo “(Des)construindo o gênero e a violência contra a mulher na escola: formação profissional e extensão universitária em Psicologia”. Ele unifica num discurso único o desafio da discussão sobre gênero e sexualidade na escola, “que , especialmente nos últimos anos no Brasil, tem sido marcada por polêmicas- como, por exemplo, os debates sobre uma possível “ideologia de gênero”. Destaco o trecho seguinte, pela incontestável veracidade: “Somado a isso, a maioria das atividades escolares referentes à sexualidade segue enfoque tradicional, limitando-se apenas à promoção de saúde, como prevenção da gravidez e doenças sexualmente transmissíveis, em detrimento da problematização da diversidade e do prazer sexual”. Assinam o texto a organizadora e mais: Caroline Luiza Bailona de Vasconcelos, Nayra Daiane Mendonça, Maria Clara Guimarães Souza, Shara Freitas de Sá, Tainara Evangelista Pascoaleto e Thais Ferreira Martins.

Deixei para ao final o texto que me sensibilizou de um jeito especial e ocupa na ordem cronológica dos capítulos o oitavo lugar. Trata-se de “Confeccionando resistências: uma estória mestiza”, escrito por Lílian Aparecida Araújo e Érika Cecília Soares Oliveira. Elas relatam experiência profissional em Centro de Defesa e Convivência da Mulher(CDMC)- Casa Cidinha Kopak- localizado na zona leste de São Paulo. Ali atenderam um grupo de mulheres (i)migrantes latino-americanas, a maioria bolivianas, que buscaram ajuda depois de seguidos atos de violência praticados contra elas por seus companheiros e patrões. O nome do grupo, por si só, revela o objetivo de conectar os diferentes através da língua: “Chá com Té”. Durante dois anos, uma vez por mês, as autoras se encontraram com as mulheres, operárias clandestinas em oficinas de costura, exploradas de forma aviltante. Nos encontros eram oferecidos chá (té), api (bebida típica do altiplano boliviano), bolos e tortas, que serviam para a aproximação e abriam possibilidades para a verbalização das violências domésticas, institucionais, misóginas, racistas e xenofóbicas vividas no cotidiano. A escuta das psicólogas, que se inspiraram na leitura de escritoras contemporâneas como a nigeriana Chimamanda Ngozie Adichio, ou pioneiras, como a brasileira Carolina Maria de Jesus, mas especialmente na de Glória Anzaldúa, texana de ascendência mexicana, falecida em 2004 aos 61 anos, permitiu uma ressignificação de vidas para algumas mulheres do grupo, o que se pode ver de forma bela e estética no texto coletivo “La Mestiza”, cujo título já traduz na grafia a metáfora da protagonista cuja identidade carrega as várias lutas das mulheres do grupo . Contam as psicólogas: “Na medida em que confeccionavam essa narrativa, uma boneca era costurada e ganhava forma, nascida da rede de relações produzidas ali (no Centro). O resultado disso foi a junção de falas de muita dor e sofrimento, em conjunto de falas de resistência e enfrentamento dentro do ambiente doméstico, nas parcerias, nos relacionamentos com a família, vizinhança, amizade. Além das histórias trazidas pelas mulheres, foram compartilhadas informações relativas aos seus direitos enquanto mulheres e migrantes, cuidados como corpo, a saúde, etc.” A estória narrada em portunhol é um texto que mereceria ocupar lugar de destaque em alguma antologia literária, seja pela forma, seja pelo fundo, seja pelo que representa como inspiração e esperança na vida.

Se a primeira orelha me convidou à leitura de “Violência contra as Mulheres”, a segunda, também assinada por Tatiana Machiavelli Carmo Souza, sintetizou minha visão sobre a obra, que “busca discutir as violências contra mulheres à luz de múltiplas teorias. Partindo de discussões e elementos históricos-sociais, culturais e de gênero que constituem esse fenômeno, busca problematizar as possibilidades de prevenção e enfrentamento das violências que as mulheres sofrem na sua condição enquanto trabalhadoras, mães, companheiras, presidiárias, estudantes etc.”

A leitora e o leitor deste livro sairão dele mais capacitados a entender a extensão e profundidade de um problema social que permeia todos os segmentos, precisa ser debatido cada vez mais, e não se resolverá a não ser a médio prazo pela discussão e pela lei. Mas é certo que no Brasil avançamos mais nos últimos dezoito anos do que durante todo o século passado.

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