Fuga

Por: Isabel Fogaça

379060

Todas as noites após as 22h, o homem toca gaita no início da Avenida São João. Amparado pelo escuro de árvores e bambus, o homem segue encostado na grade do parque Vicentina Aranha de forma que encaixa o quadril entre um pedaço e outro de aço do portão, e cortando o vento gélido característico das noites de inverno, ele continua a tocar a sua gaita, confortavelmente.

Ao seu lado direto há uma cadeira dobrável de madeira com alguma marca de cerveja estampada no encosto, esta carrega uma tímida sacola de plástico com poucos pertences do tocador de gaita. Em volta, um homem viril manobra o seu carro, enquanto algumas pessoas continuam a marchar. Outras falam cautelosamente no telefone - devido o perigo do horário - salvo exceção do japonês que caminha até a sua casa, e contenta-se apenas em apresentar um sorriso doce ao tocador de gaita; afinal, o boné do músico segue firme na cabeça, então, não há espaço para moedas.

Caminho com meu toc toc ocasionado pelo sapato de bico fino, esgotada pela falta de ovos na prateleira do mercado, desgastada pelo modelo educacional predominante, saudosa de familiares, preocupada com as manchetes da Folha de São Paulo sobre o futuro presidente do Brasil. Caminho ao encontro do tocador de gaita, e imediatamente meus pensamentos cessam. Lembro-me, então, dos presentes que em minha infância ganhei de meu pai: uma gaita, um violão e uma caneta tinteiro. Meu pai, um entusiasta, acreditava que a vida seria salva pela arte ou pela filosofia, e eu resolvi abraçar a caneta e seguir o segundo caminho.

Além disso, lembro-me da memória romântica que me diz no canto da orelha esquerda: estamos unidos por fios, viver é uma desgraça, apenas a arte salva as pessoas. E, no entanto, não consigo dizer se quem disse isso foi Osho, Schopenhauer, Cora Coralina ou meu próprio pai. Porém, nada disso importa, e minha marcha essa semana não seria pausada, e eu aqui não estaria, se não fosse o tocador de gaita.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras