Antes que a vida acabe...

Por: Angela Gasparetto

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Antes que a vida acabe, devíamos aprender a admirar a beleza solitária das tardes vazias ou o suave balançar das cortinas no silêncio mudo da sala de estar, pois elas nos dizem muito, principalmente sobre o exercício ocioso da solidão.

Devíamos ouvir mais o marulhar cadenciado do riacho e da chuva no telhado, pois eles nos acalmam, muito mais que o mais moderno ansiolítico já existente.

Antes que a vida acabe, devíamos sim parar a nossa tribulação rotineira e comungar mais com os animais, alimentar os pássaros e nesta comunhão de seres tão heterogêneos, descobrir o real sentindo da vida, aquele que só nos é ensinado na atemporal escola do tempo.

Antes que a vida acabe, devíamos sentir mais o perfume da maresia pela manhã e descalços caminhar pela areia molhada, usufruindo nos pés o beijo manso do oceano recém-acordado. Fechar os olhos e ouvir o cântico das ondas matutinas. Elas foram longe e voltaram repletas de vivências.

Devíamos contemplar mais o pôr- do- sol e tomando um saboroso vinho branco, todos vestidos a caráter, conseguir manter o nosso coração vermelho de tanto pulsar no êxtase desta espartana felicidade, que é comemorar um novo ano com possibilidades infinitas, já que a vida jaz finita para todo o sempre.

Antes que a vida acabe, devíamos pescar mais, mas não em pesque-pagues impessoais, mas sim naqueles riachos escondidos nas florestas; onde possamos ouvir apenas as cigarras ao longe e termos as atrevidas libélulas como companheiras inoportunas, as quais são absurdamente felizes, justamente por viverem livres e lúdicas, como quase ninguém na face na Terra.

Antes que a vida acabe, devíamos nos soltar feitos loucos pelos campos, correr como crianças e, do nada, estancar de braços abertos sentindo o vento fustigando o nosso corpo. E neste ato camicase às avessas, encontrar aquela liberdade selvagem semelhante a um diamante bruto, ou seja, esta sensação que define quem realmente somos em um mundo cada vez mais repleto de fabricados estereótipos.

Mas acima de tudo, antes que a vida acabe, devíamos reconsiderar o perdão. Mas não o perdão ao outro e sim o autoperdão. Aquele que te regenera, te salva, te liberta e principalmente te redime perante a ti mesmo e que é a única pessoa que necessita ser livre, antes que a vida acabe.

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