A Estalagem

Por:

Luiz Cruz de Oliveira

Faltam poucos minutos para as nove horas.

Absorto, completamente absorto, o nordestino José Santana Lima desce a Rua Líbero Badaró. O espírito do homem, há décadas residente em Franca, depois de morar em muitos lugares e de exercer profissões mil, inclusive a de cortador de cana, poderia ter-se aquietado à sombra das colinas. Ao contrário, permanece irrequieto, na busca incessante de encontrar meios de salvar o planeta.

Assim, enquanto caminha, labora sugestões para preservação das fontes de água potável. Deseja arrolar algumas delas em seu próximo livro.

Na esquina da Rua Couto Magalhães, surpreende-o um homem velho, cansado, pálido, encostado à parede da casa.

Santana se aproxima:
— O senhor mora por aqui?
— Não, não. Eu moro perto da Estação da Mogiana, atrás da linha do trem.
— Pra onde o senhor está indo?
— Vou pra praça Barão.
— Chi, então o senhor errou o caminho.
— Não errei, não, meu caro. Qual é mesmo a sua graça?
— Santana.
— Chico Franco, seu criado.
— A Praça Barão fica pra lá, o senhor errou o caminho.
— Errei não. Sabe o que é? Fazia tempo que eu não vinha aqui na Rua da Estalagem.
—Rua o quê?
—Ah, o rapaz não conhece a História... O nome agora é Rua Evangelista de Lima, mas antes, bem antes era a Rua da Estalagem.
—Nunca soube, não.
—Pois é... esta noite eu sonhei com o poeta Moisés Maia, levantei declamando a sua poesia:

“A Casa da Estalagem, casa amiga/Que o passado feliz glorificou/Onde tanta lembrança inda se abriga/Onde tanto fidalgo se hospedou.”

—Nossa, o senhor tem memória boa.
—Ah, isso é verdade, tenho cabeça de elefante, guardo tudo. E eu fui amigo do poeta. Ele ficava sentado num bar que existia na esquina da Rua do Comércio com a Rua dos Bondes... Ficava escrevendo. Ele imortalizou a Casa da Estalagem.
—Casa?
—Pois é. Era uma estalagem, uma espécie de hotel, de pensão à beira do caminho. Os viajantes se hospedavam... por isso a rua ficou com o nome de Rua da Estalagem. Naquele tempo, era uma estradinha... no tempo das chuvas, nem carroça subia...
—O senhor falou que estava indo para a praça... Eu posso levar o senhor até lá perto.
—Estou, estou indo... Qual é mesmo a sua graça?
—Santana.
—Estou indo pra Praça Barão.... Passei por aqui porque sonhei com o Moisés Maia... O amigo conheceu? Grande poeta!

Os dois homens caminham pela Rua Couto Magalhães, em direção à Rua General Teles. O mais velho não para de falar.

Santana consulta o relógio, pensa que pode ajudar o outro, acompanhá-lo pelo menos até o posto de saúde. Depois voltará e, como faz todo dia, descerá e subirá a Rua Felisbino de Lima, onde mora.

Chico Franca continua sua viagem pelo passado, registrando tudo com gestos e palavras, mas agora não é ouvido pelo companheiro que caminha a seu lado, porque Santana está novamente absorto.

A fauna, a flora, o meio ambiente cedem espaço, por instantes, à dúvida .

Será só caduquice do velho, ou a rua onde moro já se chamou mesmo Rua da Estalagem?

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