Quaresma

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É na Quaresma que elas se enfeitam.

Acabadas as festas de fim de ano, acabado o carnaval, depostas de árvores e de fios mil lâmpadas-de-todas-as-cores, guirlandas, laços, bolas; apeados os papais-noéis de janelas e telhados; esvaziadas as taças, apagados os fogos de artifício; recolhidos os tambores, jogadas a um canto fantasias e alegorias... surgem elas, exibindo seus adereços - joias violeta ou cor-de-rosa - a cobrirem a nudez marrom-verde de seus corpos.

Dizem que as quaresmeiras trazem sorte e consolo, porque vêm para colorir o cinza, abrandar os tons poentes desta época outonal, deste tempo que pede introspecção. A natureza, incansável, se manifesta, mais uma vez, em amor (ou doce libelo?), no renascimento de todos os dias, de todos os meses, de todos os anos. Generosa, entre pétalas e folhas, exibe sinais, revela símbolos; metaforiza. Amenizando a dor da morte, que antecipa, fala da esperança no ressurgimento, reitera possibilidades.

Silenciosas, as quaresmeiras desfilam pelas avenidas suas alegorias, concebidas em seda, veludo e cores. Entre o castanho e o verde, seguem, mensageiras, a melancolia do roxo, a espiritualidade do lilás e a suavidade, a ternura, a compaixão do rosa, em convite à meditação, e à retomada.

O homem, quase sempre expectador do imediato, corre ao seu lado. Água, o mais das vezes, infensa aos ventos, às luas, às marés... e suas consequências; linha indiferente às entrelinhas; caminhante de caminhos paralelos ao das quaresmeiras, segue em frente. Ora deitando olhos sensíveis sobre a possibilidade do reencontro com as cores da transcendência, refletindo(-as); voltando(-se) à conotação dos roxos, lilases e róseos; dos marrons e verdes, que acenam ao mundo metáforas de morte e ressurreição; ora, olhos baixos, viandante incolor, avançando, denotativamente.



 

Eny Miranda Médica e poeta

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