Assassino acidental

Por:

Cinema & Psicanálise recomeçou as atividades, com o filme “O Perfume”, com ricas considerações da platéia e do Dr Paulo M.M. Ribeiro, que interpretou a história de Grenouille, aquele que não se tornou uma pessoa.

Grenouille, autista, sentia, pensava, compreendia o mundo através de sensações olfativas, aprendendo pobremente com as relações que manteve com outros seres humanos. Demorou a andar, falar, e a “sentir”.

Dr Paulo, psicanalista da SBPRP, lembrou que poderíamos estar no lugar de Grenouille, o protagonista, se tivéssemos a sua história de vida.

Mas também há “barreiras autistas” em pessoas “normais”. Quando nos apaixonamos por objetos mais do que por pessoas, o cigarro, a bebida, a droga, ou nos agarramos a sensações evocadas por fantasias mais do que pelos contatos reais com as pessoas. Quando “assassinamos” os afetos que nos unem aos seres, e descuidamos que há uma “pessoa” e não um objeto diante de nós. Vemos que “barreiras autistas” acontecem cercando um vazio impenetrável no interior das pessoas que não conseguem acessá-lo, ou lidar com ele.

Alguns (observamos o fenômeno nas chamadas “celebridades”) criam uma identidade “falsa”, digamos assim, como fez Grenouille, em busca de um perfume para se assemelhar aos humanos, ele próprio não se sentindo humano. Ficamos, geralmente, perplexos ao perceber que pessoas bem sucedidas, que teriam “tudo”, de repente, se suicidam.

Interessantes questões surgiram da platéia. Uma delas é se Grenouille amou a primeira garota, da qual se apaixonou pelo aroma. Outra questão valiosa - a busca de Grenouille pela fixação do aroma de mulheres virgens e belas.

Ele foi um assassino acidental. Não havia a intenção de assassinar a primeira garota que o seduziu com o aroma. Tampouco parece ter tido remorso por matá-la. A experiência com a “garota das nectarinas” desenvolveu nele uma paixão por fixar o aroma dela em um frasco, eternizá-lo. Um perfume que dominasse o mundo, uma falsa identidade para amar e ser amado para sempre.

Consegue o perfume poderoso assassinando 25 mulheres. Aparentemente por não ter alternativa: elas não obedecem às ordens de submeter a ele, relaxadamente, os seus aromas. “Necessitava delas”, dizia.

A necessidade de ter a posse dos seus aromas. Grenouille percebera que não tinha cheiro próprio, uma metáfora para este “vazio existencial”. Era excluído do convívio humano, como estranho, “do demo”. O que havia nas “ninfas” que o levariam a criar o divino perfume, e levá-lo a se esconder debaixo de manto cheiroso, como uma barreira sedutora?

O único contato com a mãe se deu através do odor que exalava do ambiente em que ela trabalhava, a banca de peixes. Sua mãe não queria filhos e tentou assassiná-lo ao nascer. Grenouille, obstinadamente, sobreviveu.

A recusa autista de uma relação de trocas afetivas, substituída por uma coisa (como um boneco, ou máquina autônoma), é um “assassinato de alma”. O autista mata, acidentalmente, as pessoas, o afeto, e fica com objetos autistas substitutos de afetos complexos, “mata”, sem saber, a própria “psique”.

Grenouille substituiu o contato humano pelo “aroma”, objeto olfativo. Não sabia o que fazer com a adoração febril das pessoas que aspiravam O Perfume. As pessoas sacrificavam a Ética, enfeitiçadas pelo odor de Eros, que dava o poder de fazer amar e ser amado. Passada a nuvem aromática, voltaram à sua vidinha comum, esquecendo-o, querendo esquecer o que as tinha “possuído”.

Encapsulado no seu mundo autista, de sensações, Grenouille não podia perceber que a essência, a alma do ser vivo não se fixa, não é objeto de posse.
“Amar e ser amado”, vem de uma especialidade da alma, transformação pessoal, afetiva, no convívio de dois seres VIVOS. De vítima e sobrevivente ao assassinato perpetrado pela mãe, Grenouille, o “sapo” em francês, mimetiza o ato materno foi o assassino da pessoa pela qual se sentia atraído, via olfativa - pura sensação.

O aroma que o tornou Príncipe, feitiço contra o feiticeiro, propiciou contato com o seu “vazio” existencial. Mas cumpriu os desígnios primitivos lançados pela mãe, morrendo no exato lugar em que teve a primeira sensação de estar vivo.



 

Maria Luiza Salomão é psicóloga, do Instituto da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, e membro da Academia Francana de Letras

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras