Doutor das bicicletas

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Ainda o som da campainha ressoa no interior da casa, e a porta já se abre, e um homem caminha manquitolando até o portãozinho da rua. Cumprimenta o velho que transpira copiosamente dentro do terno branco. O chapéu Panamá parece arma inútil contra o sol das catorze horas.
– Boa-tarde, sô Chico. Voltou cedo, hoje.
-Boa-tarde, Tião. Ah, hoje eu não estou muito bem, não. Estou meio perrenge... uma tontura dos diabos.
– O senhor esqueceu a chave da casa outra vez?
– Não sei... não encontro a danada no bolso... E já cansei de bater na porta. Parece que a Dita está ficando surda.
-Ela saiu. Falou que ia comprar umas coisas no mercado. Ainda bem que ela deixou a chave aqui, com a minha mulher. Espera que eu vou pegar.

O velho e sua manqueira desaparecem na sala escura, retornam depois de dois, três minutos. O homem que entrega a chave não revela espanto com a atitude do ouro que, enquanto cutuca a calçada com sua bengala, conversa como se acabasse de chegar.
– Boa-tarde, Tião. Como tem passado?

Calmamente, responde com outra pergunta.
– Andou muito, hoje, Sô Chico ?
– Andei um pouco. Eu sempre falo: é preciso andar. Afinal, o coração do homem está nas pernas. Faça chuva, faça sol, eu ando. Não pego ônibus... pode ser de graça, mas eu vou é a pé. Vou e volto a pé.
– Hoje o senhor foi lá no centro?
– Fui, Tião. Fui lá na loja do Doutor das Bicicletas. Fiquei sabendo que ele recebeu um lote de bicicleta nova, coisa muito chique. Parece que o nome da novidade é calói. Estou pensando em experimentar uma... coisa muito moderna... coisa de fazer inveja até em automóvel.

Tião se apóia na grade do portão, acompanha, com olhos penalizados, os passos do vizinho que desaparece na casa à esquerda.
– Coitado! Nem lembra que o Doutor das Bicicletas morreu.
Realmente, a doença vem apagando pessoas, coisas, acontecimentos da cabeça de Chico Franco. Os amigos acompanham o trabalho da malvinda, ficam penalizados.

Parece que ninguém percebe é a esclerose coletiva.

O Doutor das Bicicletas teve loja ali na Rua do Comércio, entre a Rua Saldanha Marinho e a Praça Barão da Franca. Vendia e consertava bicicleta.

Nas horas vagas, servia à comunidade, prestando serviço junto ao Juizado de Menores. A juventude da cidade conheceu bem aquele cidadão, porque ele se multiplicava. Exigia e examinava documentos, impedia que menores assistissem às sessões noturnas do Cine São Luiz. Impedia que eles, desacompanhados, freqüentassem os bailes da AEC Associação dos Empregados no Comércio. Impedia que menores consumissem bebidas alcoólicas na Colegial e no Bar Tubarão.

Naquela época não estava na moda a expressão sonho de consumo, mas as crianças paravam diante da loja do Doutor com olhos arregalados e boca aberta, maravilhadas, namorando as bicicletas.
Pena que, então, o Papai Noel só trouxesse bicicleta para criança rica explicava a mãe. E os filhos brincavam conformados com as bolas de borracha, com as bonecas de pano.

Pena que esclerose louca tenha levado, no seu bojo, o cadilaque do senhor Antônio Alves Júnior, as suas bicicletas, a sua loja e até seu codinome famoso.



 

Luiz Cruz de Oliveira é professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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