Botelho

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Olhos no bico do sapato, o homem desce a Rua Júlio Cardoso, vindo da Praça João Mendes. Na esquina da Rua Tiradentes, seu alheamento é quebrado quando o barulho da bengala no piso e a voz de um homem velho interrompem sua caminhada.
– Bom-dia, meu jovem. Qual é a sua graça?
– Einh? Minha o quê?
– Sua graça... seu nome.
– Ah, meu nome é Otávio.
– Muito prazer. Sou Chico Franco, seu criado.
– ?!!

Prezado Otávio, você pode me fazer um favor? Estou procurando a Padaria Minerva.
– Era nesse prédio aí, mas não existe mais não. Fechou faz tempo.
– Fechou, é? Quem diria. Mas a padaria era só para ajudar. Estou procurando mesmo é a vidraçaria do Botelho. Sei que fica perto da Padaria Minerva. Parece que é na rua debaixo.
– Nunca vi falar nessa vidraçaria não.
– Não? Pois fique sabendo, jovenzinho, que o Botelho é um grande vidraceiro. Foi ele que pôs no quadro o meu diploma do grupo e o meu diploma de datilografia. Os dois estão pendurados na parede lá da sala, nunca estragaram.

O senhor Otávio arregala os olhos, olha boquiaberto para aquele homem que não para de falar. Acha o indivíduo esquisito, mas, estranhas mesmo são suas roupas: terno branco, gravata, paletó, bengala, sapatos engraxados.

Otávio desconfia da sanidade mental do interlocutor, sobretudo porque não imagina que, ali perto, na Rua Tomás Gonzaga, onde foi construído um hotel, existiu, de fato, uma vidraçaria.

Otávio se julga diante de um maluco, porque não sabe que Botelho foi um negro importante na cidade. Foi jogador de futebol profissional e defendeu as equipes do Jabaquara, da capital paulista, do Santos, do Palestra Itália, de Três Corações... Veio para Franca onde, além de exercer a profissão de vidraceiro, por muitos anos foi treinador do Internacional Esporte Clube, lá da Estação. Foi, ainda, presidente da Associação Luiz Gama por décadas.

Botelho impressionava sobretudo pela humildade e pelo trabalho constante.

O senhor Otávio nada sabe sobre o negro Botelho, nem tem tempo para indagações, pois o interlocutor, impaciente, bate a ponta da bengala com força, no meio-fio, e o interroga:
-Qual é mesmo a sua graça?
– Otávio.

O velho estende a mão e cumprimenta.
– Chico Franco, seu criado. Estou precisando de um favor. O jovem pode me explicar como faço para chegar na Rua dos Bondes?
– Nunca vi falar, não. Pra onde o senhor quer ir ?
– Preciso chegar lá na Mogiana. Eu moro lá atrás da linha de ferro.
– Vem comigo então.

Os homens descem a Rua Júlio Cardoso. Na esquina da Rua General Osório, Otávio explica.
– Esta é a Rua General Osório. O senhor vai por ela que dá certo. Vai reto, não vira pra lado nenhum que o senhor chega na Mogiana.
Os dois se despedem e se perdem cada qual no seu mundo.
Tão distantes, os mundos!



 

Luiz Cruz de Oliveira é professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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