O olhar que não é espelho

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Há uma estranheza ao olhar a nossa imagem ao espelho. Há um eu que se especializa em observar e criticar o mim, exercendo uma censura dentro da mente, um eu capaz de tratar o resto do mim como se ele fosse “estranho”.

Freud conta um episódio, em que viajava de trem, quando um solavanco fez girar a porta do toalete anexo e um senhor de idade, de roupão e boné de viagem, entrou. Ao tentar informar ao “estranho” que ele se enganou Freud se deu conta de que o intruso era o seu reflexo no espelho, reflexo com o qual se antipatizou (in “O estranho”, 1919).

Françoise Dolto, psicanalista francesa, afirma que defendemos, sob o risco de enlouquecer, uma imagem de base, uma imagem inconsciente do corpo. A mais arcaica dessas imagens, segundo a autora é a respiratória, porque o ar é “a placenta comum a todos nós”. Para Dolto, a imagem refletida do espelho é um estímulo em meio a outros estímulos.

A imagem do espelho ajuda a modelar e individualizar a imagem inconsciente do corpo, e tem a função de ajudar a assumir, o que pode ser doloroso, a própria imagem (que pode contrariar o que julgamos ser ou aparentar).

É preciso explicar para a criança que ela vê - no espelho - a sua imagem, e não ela própria, e que esta imagem desaparece quando não está lá, diante dele. O adulto deve estar junto para a criança se ver diferente dele, com a aparência de criança comparando as duas imagens. A imagem especular é um reflexo inanimado, diferente da imagem que se faz do próprio corpo.

Para esta psicanalista, o suicídio é o apelo à solidão a fim de reencontrar uma antiga imagem do corpo, ou, ainda, retornar à liberdade que pode significar para o sujeito a ausência de corpo.

Dolto, certa vez, ouviu o sonho de uma mulher, em fase terminal. Ela teve uma babá indiana e, no sonho, esta babá usava uma expressão popular para embalar bebês: “os olhos de minha filha são mais belos que as estrelas”. Logo depois a analisanda perdeu o movimento das pernas. A psicanalista entendeu a felicidade indizível experimentada pela paciente, durante o sonho, como o retorno da ternura que une uma mãe que fala e um bebê imaturo que escuta.

É bem possível que a psicanalista tenha escutado as palavras de sua paciente, nas sessões, seguindo a imagem do corpo que a habitava, enquanto bebê, quando ele escutara o canto da indiana que o embalava (sem poder andar com suas pernas).

Duas pessoas em um vínculo amoroso podem manter uma conversa inaudível entre as imagens oníricas que um tem do outro, visualizando a sua juventude, detrás da máscara do envelhecimento.

Felizmente há cirurgiões plásticos que, mesmo nada sabendo de teorias psicanalíticas (inspiradas em experiências muito íntimas) têm a intuição da complexidade que é interferir na “imagem inconsciente do corpo” dos pacientes, ao realizar as cirurgias. Há pessoas que se desesperam com o corpo pós-cirurgia, não se reconhecem nas alterações feitas, do “dia para a noite”.

Algumas cirurgias no estômago provocam rejeição em alguns obesos, um tempo depois, por não terem tido consciência desta “imagem inconsciente”. Os pacientes voltam a comer compulsivamente, retornando à forma anterior à cirurgia. E há o paciente anoréxico, magérrimo, que recusa a comer, já que sua imagem inconsciente corporal é a de ser imensamente gordo.

A imagem inconsciente do corpo afeta, também, a aceitação da velhice. O espelho não corresponde à imagem sentida, as transformações do corpo são cirurgias do Tempo que necessitam de elaboração e aceitação.

O espelho (pobre robô automatizado!) não sabe refletir as criativas variações dos voos cegos da alma. É preciso um olhar sintonizado, aquém ou além de um mero espelho.



 

Maria Luiza Salomão é psicóloga, do Instituto da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, e membro da Academia Francana de Letras

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