A diva da praça

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Brilhou intensamente nos anos setenta e oitenta. Não entre os falsos brilhantes da sociedade local, mas entre os capengas, mendigos, pirados e outros que tais da praça central. Desfilava sua fantasia travestido ou travestida, como achava mais correto, de Emilinha Borba, como se fosse a dama da praça, a baronesa, a princesa feiosa, a Geni para divertir e ser execrada por todos os tortos.

Nas noites de gala, lá vinha ele, quer dizer, Emilinha, com todos os seus adereços, cantando marchinhas famosas, rebolando, fumando, com sua cara mestiça e maltratada retocada por ruges, batons, lápis e sabe-se lá mais o quê, vestido colado e salto alto, que, segundo seu delírio, lhe dava a condição de diva, como a adorada cantora do rádio, da qual se imaginava alma gêmea. Cantava, rebolava, fumava, bebia pinga, mexia com os homens, enturmava com mulheres, contando segredinhos como uma colegial, falando mal da rival Marlene, pedindo mais um cigarro como uma menina sapeca, elogiando um broche, dando conselhos nunca pedidos e explodindo em gargalhadas tribais.

Vivia seu sonho no delírio diário, amando secretamente o rapaz do banco, do qual jamais escutara uma palavra direta, satisfazendo-se apenas por ouvi-lo conversar, às vezes sorrindo, no balcão do bar, tomando café com amigos. Guardava entre todos os delírios as palavras dele captadas e à noite, em qualquer lugar que o sono o encontrasse, dormia com o eco daquela voz, a imagem daquele sorriso moreno, bigode brilhante e olhos de jabuticaba que tanto enfeitiçavam seu imaginário e que o faziam adormecer com a ameaça de um sorriso a se desenhar no rosto judiado e feio de nascença.

Nos anos oitenta, logo após a cruel descoberta pelo mundo da terrível doença transmissível sexualmente, ele baixou hospital. Logo todos se apressaram em conclusões nefastas. Que nada, dias depois lá estava a glória da praça novamente desfilando seus desatinos. Os exames simplesmente comprovaram que não tinha absolutamente nenhuma doença grave. Tinha sido o álcool mesmo que o derrubara, mas já estava de volta, como uma dama que se cura de um pileque de amor.

Foi, certamente, o primeiro travesti da cidade. O primeiro a se montar e ir para a rua se divertir, com seus saltos e lantejoulas, encarnando sua diva do rádio, cantando, dançando, bebendo, fumando, se perdendo e se espalhando nas noites febris de uma cidade ainda possível. A dama da noite dos infelizes, locatários de marquises, colchões de papelão, catadores de guimbas, bebedores de cachaça e, em noites de glória, catuaba para dar fogo. Nesse mundo foi rainha, a rainha do rádio marginal.

Dia desses, descendo por uma rua, nas minhas intermináveis caminhadas, vejo, escorado num portão, fumando como sempre, o rosto inconfundível de nossa diva. Mais judiado do que nunca, bochechas que se transformaram em pelancas, os poucos dentes escuros, cabelos quase nenhum, mas, ainda, o vestígio de realeza ao levar o eterno cigarro à boca e soltar a baforada inconfundível.

Não me contive e numa impulsiva homenagem gritei:
– Oh, minha eterna Emilinha, como vai?

Olhando-me com olhinhos inquietos e tristes de preá, decretou:
– Ela morreu; a Emilinha morreu.



 

Mirto Felipim Poeta, escritor, observador

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