Ano novo, outra vez

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De novo um ano novo, assim, de repente, engolindo com sua irrefreável voragem e falta de modos todos os apetrechos do Natal e das festas de fim de ano.

Se cada um de nós quisesse, poderia elaborar alentada lista de prós e contras do ano findo e muitos de nós poderíamos tomar emprestado o resumo com que a rainha Elisabeth da Inglaterra carimbou o finado ano passado:

Quero ver 2009 pelas costas, resumiu a soberana, com a coragem que muitos não têm de bater de frente com o imponderável.

Sabedor de como em poucas horas coisas aparentemente mais firmes do que o Relógio do Sol da praça central levam a breca assim sem mais nem menos, vejo o ano findo findo com um mínimo de cortesia, com certo azedume, no fundo mais que desejoso de vê-lo pelas costas, rapidinho. Estou como aqueles garçons de bares movimentadíssimos que não veem o jubiloso instante em que aquele remanescente freguês manda goela abaixo o finzinho da bebida e faz menção de pedir a conta. As cadeiras já estão suspensas nas mesas, os copos foram todos lavados e enfileirados, os faxineiros varrem o amplo salão. Só aquele retardatário e talvez melancólico bebedor social não se dispõe a enfrentar os perigos da noite e por isso irrita os garçons, quem sabe todos saudosos da casa, da mulher, dos filhos.

Por mais que não queiramos, aos poucos vamos entendendo os mecanismos da vida e da pequenez humana, vamos fazendo, de tudo que nos chega perto, leituras mais ou menos acuradas, interpretações mais ou menos plausíveis de eventos grandes ou pequenos, públicos ou pessoais. Captamos com crescente clareza as angústias alheias, recebemos sinais de S.O.S. emitidos quase no tom de desespero dos náufragos dos titanics, já com a água acima das canelas.

Ao fim e ao cabo, dá vontade de resumir tudo numa daquelas frases antológicas em que autores inspirados dizem com o mínimo de palavras aquilo que não conseguimos expressar numa página toda.
Guimarães Rosa, por exemplo, reduz tratados de filosofia, enredos de maçudos romances, poemas esmerilhados no mais puro capricho a uma frasezinha de nada, posta assim sem mais nem menos na boca de cismarento jagunço:

— Viver é muito perigoso.

E não é? Basta assistir aos jornais televisivos, ler os jornais impressos do dia seguinte e sentir pesaroso, uma vez mais, a extrema fragilidade da condição humana. Quantas mortes, meu Deus, quantas desgraças por conta da violência urbana em todo o planeta, das tempestades, dos maremotos, das disputas por terra e por ouro, por mais simbólico que este possa ser.

Quem lê tanta notícia? pergunta o jovem e perplexo Caetano Veloso, perdido sem lenço nem documento na selva selvática da cidade grande.

Será que de fato atravessamos um momento histórico que abriga com requintes de sadismo más notícias, escândalos, falcatruas? Ou se trata apenas de um exercício de opções? Como assim? Tento pôr ordem no caos. Pelo que se sabe, desde que o mundo é mundo, as coisas boas e más acontecem, com um detalhe próprio do nosso tempo: tudo pode virar notícia, correr mundo. Antes, muito acontecia e pouco se sabia. Veja você: de que matéria são feitas as colunas sociais dos jornais, de que vivem as revistas de fofocas e segredinhos? De não-notícias, como catalogou Carlos Drummond de Andrade. De coisas despiciendas, para repor em circulação o termo erudito de que ele tanto gostava. Coisas de importância desprezível , coisas que nem valem dez réis de mel coado, na linguagem dos muito antigos.

E daí? Daí que o mesmo raciocínio pode ser aplicado a outros tantos aspectos da atividade humana. De repente, tudo precisa ser divulgado, qualquer acontecimentozinho reles ganha notoriedade no preenchimento de espaços em tantos noticiários de TVs nacionais, regionais e locais, de jornais grandes e pequenos, de revistas, resenhas, sumários... E nesse andar da carruagem se noticia tudo, desde a viagenzinha sem importância da figurinha antipática até o recebimento do diplomazinho sem valor algum pelo netinho do figurão. Crimes, transgressões, escândalos sociais, políticos e financeiros, uniões fugazes e separações fulminantes cada vez mais ficamos saturados de informes que sobrevivem na memória coletiva menos do que as vinte e quatro horas de pura beleza das rosas de Malherbes...

Não raro, pessoas vivem o prazer de tornar como seu o drama alheio, a alegria alheia, a (a)ventura alheia, à falta de (a)venturas, alegrias e dramas nas próprias vidas. Diferentemente do judicioso adágio inglês No news good news (a falta de notícias é uma boa notícia), a mídia internacional dá mais importância à assertiva Boa notícia não é notícia...

Você tem conseguido acompanhar com interesse, sem misturar enredos e personagens, os diferentes casos de polícia em que se transformou a política brasileira ?

Difícil, muito difícil. Dinheiro só na cueca é coisa do Ceará; dinheiro na cueca e na meia coisa de Brasília; dinheiro nas malas, Maranhão. E assim por diante. Como resumiu um observador calejado, o começo do fio da meada está em localizar uma mulher. Um retrospecto recente da história brasileira concluiu que o bom êxito das investigações se resume em levar muito a sério o mandamento cherchez la femme, quer dizer, busque a mulher. Mas aí poderia haver outra interpretação, de caráter político, e ainda me chamariam de antipetista.

Outro sagaz analista de nossos tristes tempos aconselha políticos com pretensões a voos mais altos a não se descuidarem de três das possíveis pedras no sapato, a três de seus calcanhares de aquiles: ex-mulher legítima, ex-amante e ex-motorista. Qualquer um desses três personagens tem condições de repetir a frase de um rei francês que, de volta de longo exílio, perguntado como iria se comportar dali em diante, só advertiu: “Nada aprendi, nada esqueci”...

No mais, se você não esgotou o assunto nas filosofias algo etílicas da passagem do ano, é reclamar com justa razão da corrida desenfreada das horas, dos dias, dos meses. Nem dá tempo de você pensar numa data expressiva e ela já chegou e foi embora célere, assim sem mais nem menos.

Quando você menos esperar, já será Natal outra vez, com você recebendo de novo aquelas longas, melosas e artificiosas mensagens atribuídas indevidamente a Drummond, Veríssimo, até a Rui Barbosa .

Apesar de tantas quantas, ouso desejar-lhe:

Salud, dinero y amor, como augura o velho tango de Canaro.
Felicità e figlio maschio, no desejo interesseiro de italianos de outras eras.

Paz e amor, anseio do mundo todo.



 

Everton de Paula é professor, escritor, conferencista. Fundador e membro da Academia

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