A arte de discutir

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Suponha que alguém procure discutir com você, no decurso de uma festa ou em qualquer outro lugar e situação. Ele chega e diz: “Ouvi dizer que você é a favor do movimento dos sem-terra. Pois bem, eles não passam de umas quadrilhas de bandidos!”


Suponha, além disso, que você tenha elaborado, nos últimos meses, uma honrosa pesquisa dos problemas do latifúndio no Brasil e dos sem-terra, publicado excertos em jornais e revistas, o que faz daquela acusação quase um insulto. Qual a sua resposta?


Existem três coisas óbvias a fazer e uma que não é tão óbvia. Você pode dar-lhe um soco. Pode virar-lhe as costas e afastar-se com toda dignidade de que for capaz. Pode responder: “O senhor não sabe o que está dizendo!” e travar uma violenta discussão, como num bate-boca de rua, e, como tais bate-bocas, com resultado precisamente nulo.
Estes são os procedimentos normais, óbvios.


Desta vez, porém, a bem da paz e da ciência, suponha que você tente uma experiência. Fique firme, adote a expressão mais razoável que puder e não diga coisíssima nenhuma.


O outro vai se mostrar surpreso, mas volta logo à carga: “Bem... Todo mundo sabe que os sem-terra são dirigidos por bandidos!”


Você continua com pé firme no freio. Consiste a essência do experimento em recusar-se a discutir no terreno das generalizações muito amplas, onde ninguém sabe o que o interlocutor quer dizer: “Bem”, responde você, “este é o seu ponto de vista. Mas diga mais alguma coisa. Gostaria de saber mais sobre o seu pensamento, a sua opinião.”


O camarada pestaneja e engole em seco. Está francamente desconcertado.


“Continue”, acrescenta você, “estou escutando.” E de fato você está escutando. Está procurando saber o que o faz proceder desse jeito. Teria algum sem-terra invadido parte de sua fazenda? Ou qual seria a razão de sua atitude?


O homenzinho abre a boca e torna a fechá-la e coloca-se em posição neutra. “Bem, há quem pense que os sem-terra são verdadeiras quadrilhas, o senhor não acha?”


Esse é o sinal de que a experiência foi bem sucedida. O ataque adversário não deu resultado. O homem que tentava encurralar você agora está pedindo a sua opinião. Você pode deixá-lo desarmado, ou pode levar adiante a experiência. Suponha que você próprio lhe refira um caso de bandidagem que tenha investigado pessoalmente. Mesmo porque alguns sem-terra agem como se bandidos fossem. (Aqui você lhe ressalvou o amor-próprio admitindo um caso favorável à tese dele). “Mas agora considere o movimento dos sem-terra no Brasil como um todo, pense no trabalhador rural capaz de produzir, mas sem a oportunidade de fazê-lo porque o sistema não lhe oferece a terra necessária, enquanto há tantas terras improdutivas no país. E esse trabalhador é honesto, pai de família, com crianças para alimentar e seu único ofício é o de preparar a terra, arar, adubar, plantar, colher, produzir em grande escala, numa escala tão grande, em número de trabalhadores, tão significativos, cuja produção pode tornar possível a promessa de Lula de atingir a meta absoluta de seu programa já quase esquecido do Fome Zero. E mais: há as exportações para o excedente produzido. Você tem conhecimento da fome que há no mundo? Ou seria preferível fechar os olhos para todas essas coisas e deixar as terras improdutivas servirem de belas paisagens a quem viaja em seu carro de luxo para curtir o veranismo? Dificilmente eu chamaria esse trabalhador de bandido ou essa prática de bandidagem armada por quadrilhas. Veja bem: não me refiro a este ou aquele caso constatado de invasão imprópria. Refiro-me à essência da filosofia de comportamento dos princípios dos sem-terra.”


Assim como você o escutou, agora ele quer ouvir o que você tem a dizer. Você aprende com ele. Ele aprende com você, e não foi preciso dar socos, nem fazer escarcéu, tampouco virar as costas ao adversário.


Esta engenhosa técnica, tenho-a empregado com ótimos resultados. É claro que vez ou outra a afronta é tamanha à sua autoridade que as circunstâncias passam a merecer algumas palavras duras. Mas, depois, volte à ternura... À ternura do saber ouvir, do escutar.


Li em Machado de Assis que o grau de emoção numa controvérsia varia inversamente com o conhecimento do assunto. E, em geral, a ofensiva tem muito poucos fatos com que alimentar sua emoção. (Noto que a maioria dos atacantes já não tem mais cartuchos ao fim de três minutos).


Quando você encara o atacante como um ser humano, com um legítimo ponto de vista, ele não sente ameaçada a sua confiança em si próprio: com o passar dos minutos, ele procurará saber o que você pensa, e poderá muito bem a vir concordar com você.


Bem, esta é a teoria que defendo. Há de se lamentar, porém, que existam pessoas que mantêm verdadeiro silêncio sobre determinado assunto em algumas reuniões. Mas se mantêm em silêncio não por estratégia, mas porque não sabem nada do que se está discutindo. E com o seu silêncio, passam por gênios. E alcançam escalas hierárquicas nas instituições a que pertencem.


Mas esta é uma outra história!

 

Everton de Paula
Acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 42 anos

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