O cover

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Hoje em dia, tem cover para tudo. Beatles, Bee Gees, Elvis Presley, o escambau, sempre aparece gente que faz igualzinho o original. Mas não foi o que aconteceu naquela pequena cidade mineira. Havia um sujeito que gostava de teatro, mas bebia demais, o Epaminondas. Quando aparecia o circo na cidade, já na montagem das lonas ele se apresentava para ajudar, virava auxiliar do palhaço, um faz-tudo para o circo mambembe, alimentava os leões desdentados e até chegava a remendar as lonas furadas.


Quando o circo ia embora para outra cidadezinha da região, ele se afogava novamente nos botecos da periferia, se encharcava de álcool. Até que chegou um padre novo na paróquia, que logo soube do bebum que incomodava as senhoras carolas com seus impropérios na porta da igreja, antes da missa dominical. Cheio de energia e ideais, o padre resolveu tomar uma providência, salvar aquela ovelha desgarrada do rebanho. Ao saber que o cachaceiro gostava de teatro, convidou-o para participar de uma encenação da Semana Santa. Ele seria o Cristo, teria o papel principal, poderia representar no palco como sempre gostou. Mas para isso, teria que parar de beber e ensaiar assiduamente com o grupo da paróquia.


O pé-de-cana concordou imediatamente. Ao se ver prestigiado, transformou-se por completo. Parou de beber, freqüentou religiosamente os ensaios, decorou todas as falas. Na Semana Santa, tudo corria bem. Numa das cenas, quando ele ia repartir o pão entre os apóstolos, a energia falhou, escuridão total por alguns minutos. Quando a luz voltou, surpresa para o público: Jesus comia o pão, ao invés de repartir com os apóstolos. Surpreendido pelas risadas da plateia, ele declarou ingenuamente que estava esfomeado, não havia jantado e não sabia quanto tempo ia durar a escuridão.


O padre, embora contrariado e decepcionado com o fiasco, insistiu em sua tarefa de recuperar o antigo ajudante de palhaço. Pediu para ele continuar no papel combinado. Na sexta-feira da Paixão, lá vão eles encenar a crucificação do Cristo, desta vez ao ar livre. O povo sobe em procissão o morro da cidadezinha, um caminho do Gólgota improvisado em meio aos cafezais. Levantam-no amarrado e ele fica lá, sob um sol esturricante. Os moleques, velhos conhecidos do ator principal, passam e, logo que a procissão segue adiante, provocam o Jesus-Epaminondas: “tá quente aí, vai uma cervejinha?”


Foi demais para o Cristo improvisado. Nunca se ouviram tantos xingamentos e palavrões e nunca mais o padre da cidadezinha quis saber de montar outra Paixão de Cristo.

 

Mauro Ferreira
Arquiteto, professor e escritor

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