Pelo dia das mães

Por:

Para Marina Neuville Serra

 

Me disseram uma vez que, se as mães governassem o mundo, não teríamos guerra. Não sei, acho bastante equivocada , apesar de poética, essa visão construída em torno da figura da mãe.


A minha, particularmente, causava revoluções. Não só provocava revoluções, como ela própria era uma ‘guerra’ ambulante. Implicava com tudo e com todos, tinha sempre uma palavra de desconforto para o próximo e vivia no ‘front’, hora atacando, e muito raramente recuando. Minha mãe se punha de manhã já em posição de ataque, como se a histeria ou a violência fossem redimi-la de algum desastre muito particular.


Lembro da figura dela, cigarro pendurado no canto da boca, gritando impropérios para mim e para meu irmão, havendo motivos para isso ou não, enquanto as mãos ensaiavam uma esganadura em nossos tenros pescoços. Que medo (e que fascínio!). Violenta, ela não se comovia com pouco, tampouco com muito. A mão pesada não perdoava nossos pequenos deslizes. Os grandes, então, nem se fala: a surra baixava doída e machucava muito mais por dentro que por fora. Muito mais mesmo!


Essa guerra que minha mãe travava consigo mesma e ultrapassou a fronteira da pessoa dela para nos atingir de forma inequívoca acabou virando uma cruzada muito particular e a transformando num personagem, não num ser humano. E nós -eu e meu irmão infinitamente reféns desse personagem, que para além do descontrole tinha também como atributo a sedução. Sim, ela era extremamente linda e sedutora! Carismática sem medidas, possuia o dom de convencer e comover, de brilhar na mais infinita escuridão, de vestir-se como uma mendiga e parecer princesa. Ah, que linda que ela era...


Desconfio que, por diversas vezes, despertávamos sua ira só para tê-la ao nosso lado, mesmo que no limite da loucura. Meu irmão é, aparentemente, um pouco resistente com relação a essa idéia, mas tenho certeza que lá no fundo, ele concorda com minha teoria.


Depois de cada crise de ira e loucura, ela nos tomava nos braços e sempre alguma coisa muito boa acontecia: um chamego, uma afago, uma iguaria parida daquelas mãos de fada, um sorriso solar (que era o melhor de tudo). Assim, ela pedia desculpas por sofrer e nos fazer sofrer tanto. Assim ela explicava pra gente que no jeito dela viver, só havia lugar para a equação ‘amor+dor’.


Esses instantes eram únicos. Eu via meu irmão parando de respirar (só pra tentar parar o tempo) quando ela entrelaçava os dedos em seus cachos louros...Nunca vou me esquecer desses momentos.


Pode até parecer blasfêmia, mas tenho saudade do tempo em que minha mãe era assim.

 

Claudia Filipin
Leitora

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