Luz

Por:

O velho que entra na Farmácia Osvaldo Cruz desperta curiosidade nos funcionários e na única freguesa àquela hora da manhã. Causam estranheza a vestimenta do homem chapéu, terno branco, gravata escura, camisa preta e a bengala na mão esquerda.

O balconista atarracado e moreno deseja ser solícito.

- Bom-dia, meu senhor. Posso ajudar?
- Bom-dia, jovem. Qual é a sua graça?

O balconista, de usual espirituoso, acha graça, tenta fazer brincadeira.
- Meu nome é Espedito Donizette. Espedito com esse e Donizette com dois tês, bem à moda dos mineiros.
- Chico Franco, seu criado. Por acaso, o jovem é o farmacêutico responsável?
- Sou e sussurra para o colega ao lado -, quando o patrão não está.

- Então, talvez o jovem possa me ajudar. Eu estive procurando o senhor José de Matos, mas parece que a Farmácia Santana fechou. Também não achei o farmacêutico Jaime, parece que não trabalha mais...

- Quem sabe eu posso ajudar.
- Pode, pode, sim. É coisa à-toa, coisa da idade.
- Remédio pra memória?
- Ah, menino! Você está brincando comigo? Qual é a sua graça?
- Espedito.

- Chico Franco, seu criado. Como eu estava dizendo, o que eu tenho de melhor é a cabeça. Todo mundo fala que eu tenho cabeça de elefante, porque eu guardo tudo, tudo. Não esqueço nada. Ontem mesmo eu encontrei com o Wilsinho Olien Sanches, ficamos conversando um tempão, e eu lembrava mais coisa do Internacional do que ele que foi presidente a vida inteira. O jovem conhece o Wilsinho? Foi jogador muito bom.

- O presidente do Internacional lá da Estação?
- Isso mesmo. Você sabia que foi o time do Internacional que inaugurou os refletores do estádio Lancha Filho?
- Uai, sempre achei que o time da Francana que tinha inaugurado a iluminação do campo.

- Pois achou errado. Foi o time do Internacional, jogando contra a equipe do Comercial, de Ribeirão Preto. E nós ganhamos de um a zero. O Wilsinho já tinha esquecido a escalação do nosso time, mas eu nunca esqueço nada, lembro que o nosso time entrou no estádio do Lanchão assim: Abobrinha, Paulão, Japão, Santinho e Marquete; Tóti, Tiplum e Hamilton; Pernambuco, Roberto Emerenciano e Carlinhos Canhoto. Na reserva ficou o Mantovani, o Odésio e o Coronel. O nosso treinador era o Diocésio de Melo. Lá na Rua Cavalheiro Petráglia, até hoje todo mundo fala que ele prometeu dar uma peruca de presente para a esposa, se a gente ganhasse o jogo, e até hoje ainda não cumpriu a promessa. O jogo foi numa sexta-feira, no dia 20 de março de 1970, e o nosso gol foi marcado pelo Roberto Emerenciano.

- Nossa Senhora, o senhor nunca vai precisar de remédio pra cabeça.
- Não, não preciso. Eu guardo tudo aqui na cabeça. Guardo tudo, tintim por tintim. Os outros falam que eu tenho cabeça de elefante. Qual é a sua graça?
- Espedito.
- Chico Franco, seu criado.
- O senhor queria remédio pra quê?

- Estou precisando tomar alguma coisa pra vista, ela não anda muito boa, falta um pouco de luz. Eu queria consultar com o senhor José de Matos, mas me falaram que ele fechou a Farmácia Santana. E não encontrei o Jaime da Farmácia... Andaram me dizendo que ele não trabalha mais.

- Olha, seu Chico, no seu caso, é melhor o senhor procurar um oftalmologista.
- Ah, nem me fala, jovem Eu não tenho muita confiança nesses meninos que formaram anteontem. Eu confio mesmo é nos antigos. Acho que vou procurar o Manezinho da Farmácia.

O velho leva a mão à aba do chapéu, faz o gesto de descobrir-se, faz mesura quase imperceptível.
- Preciso ir, eu moro longe, lá atrás da linha do trem. Vou pegar a Rua dos Bondes, até chegar lá na Estação da Mogiana. Eu moro atrás da linha do trem. Até breve.
- Vai com Deus, Sô Chico.

A voz do balconista exprime sinceridade. Ele sai de trás do balcão, vai até a porta, fica observando o caminhar vacilante de Chico Franco.

Muito depois de o estranho velho dobrar a esquina, dois quarteirões adiante, o coração de Espedito continua a ouvir o som metálico da bengala nas pedras da calçada.

 

Luiz Cruz de Oliveira
Professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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