Reis das Copas

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Em 1950, não vivenciei o “maracanasso”, dia em que os “hermanos “da antiga Província Cisplatina, isto é, o Uruguai, derrotaram o Brasil no templo do futebol. Não tinha ainda idade para sofrer.


Comecei a me interessar pelo futebol em 1954 quando o fabuloso Corinthians Paulista, o Campeão dos Campeões, o famoso “timão da fazendinha “, ganhou o campeonato no ano do quarto centenário de São Paulo.


Em 1958 realizou-se a Copa da Suécia. Aí sim: já conhecia os jogadores, as regras e malícias do jogo. Vibrava com as vitórias do Brasil. Umas após outras, as Seleções européias iam caindo sob os pés dos brasileiros. Primeiro foi a Áustria. No duríssimo jogo contra o País de Gales, surgiu a genialidade de Pelé. Iashin, o imbatível goleiro russo, levou dois gols dos brasileiros. Num dos jogos finais em que o Brasil havia sofrido o primeiro gol, Didi, o homem da folha seca, orgulhoso e destemido, pegou a bola no fundo da meta, levou-a até o centro do campo como quem quisesse dizer:


“Vamos virar. Vamos ganhar e ganhar bem. “


E o Brasil goleou naquela tarde. Foram 5 gols.


Guardo em minha memória auditiva a voz de Edson Leite:
“Meu cronômetro marca: 20 minutos cravados do segundo tempo. Placar em Gotenburgo: 2 a zero, o Brasil vence.”
Guardo também as fidedignas narrações ( feitas num português corretíssimo ) de Pedro Luís Paulielo, o aquinense, que, segundo consta, foi dispensado da Rádio Club Hertz de Franca por ter deixado escapar, numa de suas transmissões:


“Cabeceia com a cabeça... “


O som vinha de longe, meio rouco, cheio de estáticas, Não tinha importância. Nós imaginávamos as jogadas e, depois, tentávamos repeti-las nos campinhos da Vila Flores. Os locutores também eram craques que alimentavam a nossa imaginação e acabavam tornando-se nossos ídolos.


Talvez seja saudosismo, talvez! Porém, não houve uma Seleção como a de 58. Bastariam Garrincha e Pelé. Mas , havia ainda Nilton Santos, Zito, Djalma Santos, Gilmar e Didi. Quem poderia enfrentar um Selecionado com esses craques? Quem poderia vencer esses verdadeiros “reis das Copas “?


Quem viveu e vibrou com a Copa de 58, as que lhe sucederam são cópias, pálidas cópias do futebol-arte, do futebol-moleque, do futebol-alegre que se praticava no Brasil e que sucumbiu perante as novas técnicas, táticas, estratégias elaboradas com o objetivo de que o adversário não consiga jogar futebol e fazer o gol.

 

Chiachiri Filho
Historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras

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