11/01/2017

Constranger-se para quê?

Enfrentamos profunda revolução de costumes, causada por interação tecnológica. Estamos trocando o olho no olho e a confiança que sempre nasceu da convivênci, por espécie de inconsciência grupal. Já há quem leve o celular à boca ao invés do garfo, e nem percebe. Não mais indivíduos. Estamos nos tornando grupo, e jurando que nossos compartilhados “põem a mão no fogo por nós!”. Pior ainda é observar que estes grupos estão produzindo suas próprias verdades, seus integrantes se alienando das “verdades verdadeiras” que estão aqui fora.  
 
Há uns dois anos recebi, por e-mail, de amigo a quem sempre dediquei integral confiança, texto pesado, segundo me disse, versionado do idioma alemão após ser publicado por revista econômica daquele país. Nele, a chancelar Angela Merkel detonava a então presidente brasileira Dilma Rousseff, acusando-a de ingerenciar assuntos que não lhe diziam respeito.

 
Essa minha fonte poderia ter me induzido rapidamente a erro. No texto, a avalizar, constava o nome da revista, data de publicação. Aparentemente, tudo certo. Algo, porém, não soava correto. Líderes de Estado, a não ser em circunstâncias muito especiais, passam longe de tornar públicas, divergências que podem ser sanadas com ações protocolares. Tomei, então, simples providência: fui a internet e busquei o site da revista, e lá estava a matéria, em legítimo alemão. Pedi ao Google Tradutor que versionasse. A ferramenta digital, distante de paixões políticas e humanas, trouxe o factual da fala de Merkel, nem uma virgula da versão bombástica que meu amigo confiável compartilhou. 
 
Respondi-lhe pelo “velho” telefone. Ele, surpreso e constrangido, pediu encarecidas desculpas. Sei que fez a postagem premido por sua descrença na ex-presidente e, especialmente, no partido que a apoiava — e eram direitos seus.  Neste início de ano, de novo. Recebi cópia de “desabafo” do cantor Sérgio Reis em entrevista concebida “ao jornal Diário de São Paulo”, pedindo desculpas aos brasileiros por ter lutado contra a ditadura militar e, com tantos outros companheiros, “ter devolvido essa (...) de democracia à nação brasileira”.
 
Chegou pelo Whatsapp. Conheço e respeito o remetente, mas, de novo, doeu o velho  cacoete profissional: Sérgio Reis disse isso? Na internet estava, na internet fiquei. Sérgio não disse nada daquilo. Não foi entrevistado. O desabafo — sim é um desabafo — não é dele, e sim de Rogério Moreira, que escreveu para o Diário do Leitor do Diário de São Paulo, e já faz tempo. Claro que não é panaceia para todas as dúvidas, mas através de farsas.org, ou boatos.org, além da gente se divertir, pode-se evitar compartilhamentos constrangedores, mesmo que contenham o que você queria muito dizer. PS - Se realmente quiser dizer, escolha você as palavras, agregue-as e assine, para o bem e para o mal.
 
Luiz Neto
Jornalista, mestre cerimonialista, tutor de Expressão Escrita, Fala e Gestual - falecomluizneto@gmail.com

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