14/05/2017 - Reportagem de Sônia Machiavelli

Bolo pra Mãe

Foto de: Dirceu Garcia/Comércio da Franca

Ingredientes:
 
1 xícara(chá) de farinha de trigo
¾ colher (chá) de bicarbonato de sódio
¼ de colher (chá) de sal
½ xícara (chá) de açúcar
¼ de xícara (chá) de óleo de milho
½ de xícara (chá) de leite azedo
1 colher (chá) de extrato de baunilha
1 ovo grande
1 gema
⅔ de xícara (chá) de nozes grosseiramente  picadas
3 bananas nanicas bem maduras
 
Pesquisar sobre a origem de pratos que hoje fazem parte do nosso cotidiano é uma oportunidade de viajar para outras eras e descobrir que de fato nada há de novo no mundo. Os bolos, por exemplo, que hoje são alimento banal, têm longa história marcada por evoluções e celebrações. 
 
E o registro escrito começa na corte do faraó Ramsés lll. Ali havia um tipo de confeitaria onde uma tabuleta mostrava vários tipos de pães doces à disposição dos nobres. Isso, por volta de 1175 a C. Meia dúzia de séculos depois, os imperadores romanos se deleitavam com a produção de seus cozinheiros, que conhecendo a técnica da fermentação desenvolviam massas fofas, contrárias às dos egípcios que eram pesadas. Mas ambos os povos tinham por hábito acrescentar a elas frutas secas junto ao mel. Sim, vinha do mel a doçura; não se conhecia então açúcar de cana ou beterraba. 
 
Parece que a tradição de servir bolos em casamentos teve origem por esta época. Há relatos de cronistas antigos sobre o costume nas famílias abastadas do império de preparar massa com nozes e mel para a festa. Mas ela ainda não tinha a forma arredondada que daria origem à palavra bolo. Nem servia ao consumo, e sim a um ritual que consistia em atirar pedaços amassados sobre a cabeça dos noivos. Mais ou menos o que se faz hoje com arroz na saída da igreja. Desejava-se que os deuses derramassem sorte e fertilidade sobre o par. Este costume teria sido levado por Júlio César para a Bretanha, ainda antes da era cristã. 
 
As primeiras receitas mais próximas das que hoje conhecemos foram registradas em cadernos e livros que circulavam na corte de Nápoles antes dos alvores do século XVI. Quando Catarina de Medici saiu de Florença para se casar com o rei de França, Henrique II, levou como dote confeiteiros já célebres, assim como o costume civilizado de usar garfos em lugar de mãos para comer. Seu bolo de casamento foi o primeiro a ser confeccionado em andares e ela inaugurou um jeito de celebrar núpcias que marcou o próprio reinado e o de seus filhos, como se pode ver na bela série Reign, mostrada pelo Netflix. A partir de então, os bolos ricamente decorados passaram a ser um hábito e também um símbolo de status e poder econômico. 
 
No Brasil? Ah, por aqui o primeiro bolo chegou com Cabral, em 24 de abril de 1500. Ancorada a nau capitânia na baía de Porto Seguro, foram recebidos a bordo dois índios da etnia tupiniquim. A eles foram oferecidos como boas-vindas peixe cozido, pão salgado e um bolo chamado “fartem da Beira”, iguaria conhecida em Portugal até hoje, apenas com a troca da consoante final, que de m passou a s: fartes. Os fartes são um tipo de pão-de-ló com recheio de creme de amêndoas. O fato foi narrado em carta de Pero Vaz de Caminha a Dom Manuel, o Venturoso, rei de Portugal. Aos índios não agradou o peixe cozido, nem o sal do pão, muito menos o doce do bolo: jogaram fora rapidamente tudo o que levaram à boca e o paladar estranhou.
 
Três décadas depois, tão logo se formataram as capitanias hereditárias e a cana formou mares verdes nas regiões litorâneas, as receitas de doces tropicais com açúcar começaram a se multiplicar na colônia. A vinda da família real e da corte portuguesa, em 1808, europeizou num primeiro momento a nossa incipiente culinária. E as técnicas de preparo do Velho Mundo, aliadas à abundância das frutas tropicais do Novo, foram definindo novo padrão de elaboração e consumo. Os bolos viraram vários; tantos que hoje é de se crer que exista pelo menos uma centena catalogada no Brasil. Isso na área da confeitaria profissional, porque nos espaços artesanais a criatividade impera e expande a lista. Uns têm jeito de bolo de criança, como o de cenoura; outros lembram festas juninas, como o de fubá; alguns parecem feitos para surpreender uma mãe no seu dia, como este de banana, fácil de ser preparado para um café da manhã onde o ingrediente maior será o amor, claro. Veja que prático!
 
Azede o leite, colocando numa xícara de chá uma colher (sopa) de limão. Espere quinze minutos, até que ele talhe, sinal de que está pronto para ser usado. Enquanto isso, peneire numa tigela grande a farinha de trigo, o bicarbonato de sódio, a pitada de sal. Reserve. Bata bem o ovo inteiro, a gema, o açúcar, o óleo, a baunilha e o leite azedo até ficar cremoso. Derrame sobre a mistura seca a mistura líquida. Mexa bem. Amasse as bananas até transformá-las em purê: quanto mais maduras as frutas, melhor ficará este bolo. Acrescente o purê de bananas à massa e misture até homogeneizar. Reúna então as passas e nozes e volte a mexer. Unte uma forma de pão com óleo, polvilhe farinha de trigo, despeje a massa. Dê umas batidinhas contra a bancada da pia para que não se forme ar ao assar. Leve ao forno previamente aquecido a 160 graus. Ao final de 60 minutos, espete o palito. Se não sair seco, deixe mais alguns minutos. Depois de assado espere uma hora antes de desenformar e servir para sua mãe. Aliás, ela começará a saborear assim que um aroma delicioso invadir a cozinha a partir do forno. 

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