25/06/2017 - Reportagem de Sônia Machiavelli

Brigadeiro de paçoca

Foto de: Dirceu Garcia/Comércio da Franca

À tradicional combinação de leite condensado e manteiga acrescenta-se a paçoca ainda mais esmigalhada do que sua etimologia explica e se decora com o amendoim não muito torrado e grosseiramente picado

“Meu bem/ Esse teu corpo parece/ Do jeito que ele me aquece/Um amendoim torradim (...)” 
 
Dia desses vi Alcione cantando na televisão Amendoim Torradinho e me dei conta de como o tempo voa, pois ainda menina ouvia Ângela Maria fazer o mesmo nos programas da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, então a predileta de minha mãe. O inocente espírito infantil não captava o espírito da letra, mas o “amendoim torradim”, livre de qualquer metáfora, grudou no meu ouvido, foi recolhido pela memória, não evaporou. Curiosa, fui ao Google, nossa enciclopédia virtual, para me informar sobre o autor da composição. Descobri ser um tal Henrique Beltrão, de quem nunca ouvira falar. Outros cantores brasileiros, além de Alcione e Angela Maria, imprimiram a esse samba-canção seus mais vivos sentimentos. Entre eles, a então caloura Sylvia Telles, primeira a gravá-lo; o apaixonado Cauby Peixoto; e Ney Matogrosso, personalíssimo intérprete. 
 
Surpreende-me como certas canções resistem ao tempo e são regravadas como se fossem novas, graças à interpretação dos que vão conferindo renovados jeitos de apresentá-las. Na culinária esse fenômeno também acontece, e uma receita já tornada clássica pode ser revisitada e exibir um toque diferenciado, embora sua essência permaneça. É o que me ocorreu ao preparar para uma festa junina o brigadeiro de paçoca, que considerei bem adequado à época. O brigadeiro, doce iguaria nacional que tem a idade aproximada da canção acima, início dos anos 50, ganha toques de amendoim, leguminosa nativa do Brasil e cujo étimo remete ao que é enterrado- assim como mandioca. Segundo Antenor Nascentes, nosso celebrado filólogo, a raiz seria mã du’bi, donde se encontrarem no norte/nordeste sinonímia como mandobi, mandubi, mendubi, mendubim, menduí, mindubi. E este ‘a’ anteposto? Foi uma influência do colonizador português que já conhecia uma castanha com sabor parecido- a amêndoa, e acabou modificando por similaridade fonética e gustativa a palavra. O acréscimo devidamente incorporado aparece no começo do século XVIII, quando o povo brasileiro ainda falava o nhem nhem nhem, uma mistura de tupi com português e africano. 
 
Com amendoim os índios não faziam paçoca doce, pois desconheciam açúcar. Faziam paçoca misturando os grãos esmigalhados com farinha de mandioca, da mesma forma como a encontramos até hoje em algumas regiões do interior paulista. E preparavam a paçoca básica com carne moqueada (aquela que era defumada no moquém) e a mesma farinha. Tal paçoca salgada serviu de alimento aos bandeirantes, pois durava semanas sem se deteriorar ou ter o sabor modificado; e sustentou por pelo menos três séculos o caipira radicado no interior carente de tudo. Já a paçoca doce chegou à mesa colonial quando a cana-de açúcar revelou que gostava da terra brasileira, o que permitiu instalação de engenhos em vários pontos do litoral. 
 
Paçoca de amendoim deveria ser o doce brasileiro por excelência, aquele que representaria nossa cultura, quer pelos ingredientes, quer pelo nome. Afinal, também paçoca é palavra de origem tupi, uma combinação de onomatopeia aiapaçoc: socar no pilão. Aliás, esta guloseima industrializada vem evoluindo, se diferenciando, mesmo mantendo seus elementos básicos. Faz sucesso nas festas juninas a paçoca tipo rolha, de cor mais clara que a tradicional, e no formato que já não é mais quadrado ou retangular, ao qual se habituaram na infância os de minha geração. 
 
O brigadeiro de paçoca que você vê na foto é para comer com colher, o que significa atenção ao ponto para não ficar muito duro. Em tempos de vigilância e censura, às calorias e aos obesos, deve ser servido em copinhos de aguardente. Assim, ninguém exagera. Entramos na última semana de junho e na quinta-feira tem São Pedro; muitas festas ainda estão acontecendo. Esta é uma sugestão fácil de preparar e, com certeza, vai agradar. Não tem erro. Todo mundo gosta de brigadeiro. 
 
As paçocas para esta receita são encontradas em supermercados, acondicionadas em embalagem plástica redonda. Bastam três para uma lata de leite condensado. Elas são macias; com um martelinho de carne é bem fácil desfazê-las, transformá-las em farofa. Despeje o conteúdo de uma lata de leite condensado numa panelinha e junte a paçoca desmanchada. Misture. Ligue a chama do fogão e mexa sem parar, até aparecer o fundo da panela. Assim que o avistar, desligue. Junte a manteiga e mexa até que esta seja totalmente incorporada. Por fim agregue e creme de leite e volte a mexer. Espere amornar e despeje nos copinhos. Torre rapidamente o amendoim em frigideira. Assim que ele esfriar, coloque num pano de prato ou guardanapo e bata o martelo para quebrar de leve. Decore com pedacinhos a superfície do brigadeiro de paçoca. 
 
porção: 10
dificuldade: fácil
preço: econômico
 
ingredientes
 1 lata de leite condensado
 1 colher (sopa) bem cheia de manteiga
 3 unidades de paçoca-rolha
 2 colheres de creme de leite (sem soro)
 50 gramas de amendoim sem casca e ligeiramente torrado
 
Passo a passo
 
Esfarele com um martelinho de carne as paçocas tipo rolha
 
Misture a paçoca ao leite condensado já na panela
 
Mexa até aparecer o fundo da panela; desligue a chama
 
Junte manteiga e depois o creme de leite mexendo para agregar bem
 
Coloque em copinhos e decore com amendoim torrado e quebrado
 

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