15/04/2018 - Reportagem de Marcella Murari

Órfãos do trânsito: a realidade por trás das estatísticas

Foto de: William Borges/Comércio da Franca

Familiares de Milena Fernandes, vítima de acidente. 'Um pedaço de nós foi embora com ela', disse a mãe, Elisa (2ª esq. p/direita)

Segunda-feira, 2 de abril de 2018, Jardim Ângela Rosa. Era mais um início de semana de trabalho e estudos. Como de costume, Milena Fernandes Águida, de 31 anos, se levantou da cama por volta de 5h30. Preparou café da manhã para os três filhos, Larissa Fernandes Chinaglia, de 14 anos, Victor Hugo Fernandes Chinaglia, 10, e Danielly Fernandes Campos, 4, se arrumou e rapidamente organizou as crianças para que, assim, começassem seu dia. 
 
Ela se despediu do garoto, que estuda perto de casa, e foi deixar a primogênita na escola “João Marciano”. Tudo isso antes das 7 horas. Depois, voltou para casa e buscou a caçula, que estuda em uma creche do Recanto Elimar.
 
Dali, a mãe seguiu para a Unifran. Era ali que estudava e lutava por uma nova carreira. Cursava o 2º ano de Direito. Inspirou-se na história da própria mãe, que começou a mesma faculdade e precisou parar. Dizia que se formaria, seria uma ótima advogada e daria uma vida melhor à família, superando todos os obstáculos que aparecessem. Após as aulas, Milena saiu da faculdade e, por volta de 12h40, pegou a avenida Distrito Federal para seguir até a escola da filha mais velha. Iriam para casa almoçar e, depois, a mãe trabalharia na banca de pesponto de casa. Foi ali que a vida da família tomou um trágico destino.
 
A morte
No cruzamento da avenida Distrito Federal com a rua José Ribeiro Conrado, Milena foi atingida por um veículo, conduzido por um autônomo de 63 anos. O impacto da colisão entre o carro e sua moto foi tão violento que a mulher foi arremessada e bateu o corpo em uma árvore. Sofreu múltiplas fraturas. “Soube que ela segurou na mão de uma pessoa e, em meio à dor, rezou e pediu para Deus não levá-la naquele momento”, contou sua mãe, Elisa Fernandes Oliveira.
 
Milena foi socorrida até a Santa Casa e sua família foi notificada do acidente. Elisa foi até o hospital e deparou-se com a filha na maca, prestes a entrar no elevador com médico e enfermeiros. Ela perguntou o que havia acontecido. “Só ouvi ‘â mamãe...’ E vi quando fez o número 3 com os dedos, entendi que era uma referência aos meninos.”
 
Da Santa Casa, a sapateira não saiu mais. Seu estado era grave e precisou amputar uma perna. Foi conduzida ao CTI (Centro de Terapia Intensiva). A vítima estava entubada, mas teria ouvido de Elisa que precisava ficar tranquila e que estava cuidando de seus filhos, como ela sempre pedia. “Vi lágrimas escorrerem de seus olhos quando falei isso. Foi ali que nos despedimos”, disse a mãe.
 
‘Mamãe virou estrelinha’
Exatamente 24 horas após o acidente, Milena não resistiu e morreu. A notícia foi recebida com desespero pela família. A mãe, seus irmãos, Maiara, Murilo e Michelle, e Elaine Cristina Fernandes, tia da vítima, tinham a árdua missão de contar aos filhos da sapateira o que havia acontecido. “Foi muito difícil explicar o que aconteceu. Por imprudência desse homem, três crianças ficaram órfãs”, disse Elaine.
 
As lágrimas, o desespero e a tristeza não demoraram a vir à tona. Os mais velhos entenderam a notícia. Danielly, de apenas 4 anos, naturalmente, levou mais tempo. Ao chegar da creche, ficou procurando por Milena para brincar, comer e rezar Pai Nosso. Depois, ao ouvir mais uma explicação da avó, ela mesma disse à família a frase que repete sempre que se recorda de Milena: “Mamãe virou uma estrelinha e está me olhando lá do céu.”
 
Aos 31 anos, que havia completado no final de março, Milena deixou três filhos, mãe, três irmãos, familiares e diversos amigos, e entrou para a estatística de mortes no trânsito de Franca.
 
Imprudência
A família de Milena é uma dentre 17 que perderam seus entes queridos nas ruas e perímetro urbano das rodovias. E isso apenas de janeiro até agora. 
 
Os números são vistos com preocupação pelas autoridades. Já é o início de ano mais violento da década no trânsito. Isso motivou a criação de campanhas da Prefeitura e da Polícia Militar. Porém, ainda assim, acidentes continuam acontecendo. 
 
“Há a divulgação e ajustes que estão sendo feitos. Outros ainda precisam acontecer, mas não adiantará muito se as pessoas não respeitarem as normas de trânsito”, disse o tenente Régis Mendes, do pelotão de Trânsito, que prosseguiu. 
 
“A imprudência, em atos como não respeitar a sinalização, beber e dirigir em alta velocidade, é o que causa a maioria dos acidentes. A educação dos condutores precisa mudar”, alertou o policial.

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