12 de abril de 2021

Nossas Letras

Dona moça toda prosa

O livro “dona moça toda prosa” ,de Cirlene de Pádua, brinca no título com os sentidos de “prosa”, mas contém uma forte carga poética, impossível de ser elidida da escrita de uma autora que transitando pelos dois gêneros mescla ambos, conferindo à sua obra delicadeza e sensibilidade. É o que registra Sonia Machiavelli no seu comentário.

Nossas Letras 23/01/2021
Sônia Machiavelli
Especial para o GCN
Um vestido rosa de organza bem rodado. Pé de amoras. O cão na sua condição de melhor amigo. Uma flor aqui e outra ali a mostrar o milagre da vida na natureza. A descoberta do mundo em cidade pequena. Os muitos irmãos. A adolescência entre colegas.

Parto nos moldes antigos, quando as cesáreas eram raras na área rural. Ou seriam mulheres do campo melhores parideiras? A casa da avó com os índices que ficam guardados nas gavetinhas da memória adulta. Um episódio feliz que nunca foi deletado e de repente sem querer reaparece. Outro, não tão alegre, onde uma revelação causa impacto no espírito da menina de oito anos.

A condição da empatia, brotando entre pessoas que nunca tinham se visto. A capacidade infinita da memória afetiva arquivando tudo o que ecoa no coração. O amigo que partiu. O avô que contava histórias. A amiga que perdeu a memória. A fragilidade da vida. O valor da amizade. O tempo que urge e nos apresenta no outro nossa própria transformação em efeito especular.

Uma pessoa para quem tivemos importância porque compartilhávamos afinidades eletivas. Episódio engraçado contado em família e nunca desgastado. Uma gratidão enfim verbalizada. Recorte de um Brasil muito distante, cultura diversa, outras comidas, outros falares, região pouco conhecida da gente paulista. A diversidade entremostrada.

Uma palavra que desperta curiosidade por desconhecida e talvez seja aquela que abriu à futura escritora portas para o mundo da poesia, embora ela mesma nem saiba ainda o que seja um verso. A diferença entre gêneros literários. O relato crítico em primeira pessoa tratando de assunto delicado com muita sutileza. O conto romântico, com final feliz e tudo o mais, sob ponto de vista do narrador. O resgate em terceira pessoa de umas falas de ciganos, roupas coloridas, lenços de seda, longas saias, a vida nômade. O preconceito semeado pelas palavras de um adulto no ouvido de quem começa a viver. Os bichos que protagonizam histórias. O discurso que ergue metáforas.

Textos com fortes acentos na natureza. Notícias em forma de carta escrita do outro lado do Atlântico, de onde partiram os navegadores portugueses que chegariam à costa brasileira. Narrativas a respeito de escolhas feitas sobre as quais há que se ter responsabilidade. Algumas histórias engraçadas, outras reflexivas, todas interessantes. Fechando o livro de crônicas, dez textos num gênero novo que é o microconto,ideal para ser lido nesse tempo em que uma praga nos tolhe a liberdade, ameaça nossa vida,nos afasta dos amigos e estica os dias com medo e angústia, tornando-os pesados como chumbo.

Cada uma das frases acima é um brevíssimo resumo dos textos do livro “dona moça toda prosa”, de Cirlene de Pádua. Todas as situações que registram poderiam ter sido vivenciadas e contadas por qualquer pessoa. O que difere um discurso de outros é sua característica literária, que vem de relatar o que os olhos enxergam com a substância emocional da autora. Essa substância no caso é a poesia, como revela Cirlene de Pádua em “sinestesias”:

“Nós, os poetas, poetamos com todos os sentidos antenados. Sentimos o aroma das flores, da relva molhada, compreendemos o canto dos pássaros, ouvimos os segredos da lua. Compartilhamos o belo, arrebatando-lhe cores, luzes, emoções. Pintamos em aquarelas as palavras, as sensações (...)

O livro “dona moça toda prosa” , que brinca no título com os sentidos de “prosa”, contém uma forte carga poética, impossível de ser elidida da escrita de uma escritora que transitando pelos dois gêneros mescla ambos, conferindo à sua obra delicadeza e sensibilidade.

Lançado recentemente, traz o timbre da Ribeirão Gráfica Editora. A artista plástica Toninha Ravagnani assina a capa e várias ilustrações, com seu estilo que se casa muito bem ao da autora. A orelha tem a assinatura do professor e escritor José Valdair Costa Rios,o Vardá. O prefácio é do professor e poeta Baltazar Gonçalves.

Na contracapa Dôra Borges, Membro da Academia Cassiense de Letras, formula com precisão a essência do livro de Cirlene de Pádua: “quem dera a vida se resumisse nessa prosa gostosa, onde o passado se mistura com o presente numa dança de palavras multicoloridas, tricotando o tempo, perfumando a alma de lembranças e causos que nos fazem reviver o feliz tempo da delicadeza, onde o riso, o amor, a família e a esperança tanta, ecoavam num infinito chamado vida, tão bem descrito por essa encantadora dona moça.”



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