12 de abril de 2021

Nossas Letras

Ca, Co, Cu

Sônia Machiavelli escreve sobre a reação de uma criança diante dos primeiros palavrões que conhece e a respeito de dois deles pronunciados pelo presidente da República ao xingar a mídia por ter revelado altos gastos do governo com leite condensado, chicletes e coisas mais.

Nossas Letras 30/01/2021
Sônia Machiavelli
Especial para o GCN
Aprendi a ler na cartilha “Caminho Suave”, como quase todos os de minha geração. Era adotada nas escolas públicas do país. Criação da professora Branca Alves de Lima, ficou na memória afetiva de milhões de brasileiros entre os quais me incluo. Consigo me lembrar perfeitamente das ilustrações e letras maiúsculas e minúsculas desenhadas habilmente nas páginas quadradas. Sinto prazer revisitando o tempo em que o boi babava na bacia e a ema botava ovo. Acho que todos nós que pertencemos a tal era só acusamos um único desconforto que brotava quando, depois de bem aprendidas consoantes e vogais, ao virar uma das primeiras páginas nos deparávamos com a letra C e suas combinações silábicas: Ca, Co, Cu.

Em primeiro lugar era estranho que na linha inicial não houvesse cinco sílabas como na anterior- Ba, Be, Bi, Bo, Bu- mas apenas três. E lá íamos nós, primeiramente repetindo a leitura básica da professora- Ca/ Co/ Cu. Em coro, tudo bem, apesar de uns risinhos rapidamente reprimidos pelo olhar severo de dona Maria. O duro era ler sozinha- sim, a classe não era mista, seria pior se o fosse. As meninas tinham de ler inidividualmente. Umas iam bem velozes para acabar logo com aquilo- cacocu. Outras engasgavam: Ca, Co,...De novo. Outra vez. Por fim saía o Cu, o rosto pegando fogo.

Ignoro como aprendemos os palavrões básicos da nossa língua. No meu caso, em minha casa com certeza não. Nunca ouvi termos ou frases chulas da boca de minha mãe, que acreditava na força das palavras e evitava algumas que nem eram obscenas como “desgraça” e “demônio”, ambas proibidas sob nosso teto. Assim, muitas vezes penso onde foi que ouvi pela primeira vez as obscenidades que integram o léxico dos xingamentos em português. Por certo devo ter escutado de alguma outra criança, ou mesmo de vizinho, sei lá. A mais recorrente delas, putaquepariu, meus ouvidos apreendiam como uma só palavra. Sabia ser grande ofensa, mas o sentido do substantivo e do verbo passava a anos-luz de distância.

Por essa época, já reconhecíamos o mais comum dos impropérios escrito na fachada de prédio próximo ao grupo escolar- lugar onde aprendíamos mais que ler e escrever, também a ser civilizados. Porém, havia exceções e, municiado com o mais negro carvão, algum menino cravava na parede o monossílabo cuja leitura embasbacava os mais tímidos. Sempre de forma errada, com o acento agudo que nunca existiu a não ser na intenção de quem queria ofender.

Como em toda classe sempre tem alguém mais espirituoso, na minha era a uma menina com cabelos pretos muito lisos e lindas feições de índia que costumava perguntar coisas inconvenientes com candura de anjo: “_Dona Maria, cu tem acento?” Ao ouvir um cortante “Não!”, redarguia: “- É que na parede da livraria aqui perto está escrito com acento”. E a professora, impassível : “Está errado!”

Vinda desse mundo de inocência, que se perdeu quase todo nas muitas quadras já vividas, mas manteve algum traço dentro de minha alma, fiquei chocada ao ouvir o presidente da República, feito moleque brigando na porta da escola, mandar a mídia à puta que pariu. Só porque ela revelou dados do próprio palácio dando conta de um gasto de mais de 15 milhões de reais com leite condensado e outro tanto com chicletes, alfafa e não sei o que mais. Não satisfeito, sugeriu aos jornalistas que enfiassem as latas lá naquele lugar que todo brasileiro sabe onde fica.

Ah, são outros tempos, pensei com melancolia, pois ainda estou reclusa, temendo o coronavirus. O caminho suave ficou muito lá atrás quando parecia tão fácil reunir consoantes e vogais depois de ter copiado todo o alfabeto no caderno de caligrafia. Era prazerosa a descoberta das palavras escritas, todo mundo aprendia com facilidade. No segundo semestre já recebíamos um livrinho, prova cabal de que estávamos alfabetizadas.

Desde então vou tentando ler o nosso Brasil. Um presidente construiu cidade árida para chamar de sua; outro abandonou os milhões que na esteira de uma vassoura o elegeram. Um general implantou ditadura que durou 21 anos e da qual o último militar saiu dando coice e falando que preferia cheiro de cavalos ao do povo. Teve um desequilibrado eleito com promessa de acabar com os marajás e acabou impichado. Até elegemos- quem diria!, um presidente que se jactava de não gostar de ler e uma presidente que fez excêntrico elogio à mandioca num momento surreal. Agora temos um capitão bizarro em Brasília que, conscientemente ou não, a toda hora faz apostas cruéis contra a vida insultando quem luta contra a morte.

Como desgraça pouca é bobagem, encontro nas redes sociais postagens de internautas que grafam “cesta-feira” e “sexta básica”, desdenham da Covid, confessam-se terraplanistas e antivacinas, repetem as sandices do seu amo e senhor, e ainda ofendem com chulices quem o critica. É quando eu me pergunto como o Legião Urbana nos anos 80 : “Que país é esse?” E constato que pela atualidade da letra escrita há 42 anos, somos um país que avança um passo e recua dois na linha de sua história.



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