12 de abril de 2021

Nossas Letras

Luta vã

Na minha mesa nada sobra, é farta do que preciso: leio e escrevo – cozinho e como. No entanto, dizer grão não é o mesmo que dizer palha.

Nossas Letras 20/02/2021
Baltazar Gonçalves
Especial para o GCN
A vida é cheia de luta vã, brigas que a gente compra porque parece barato. Recentemente comprei essa briga desnecessária, mas revigorante confesso, contra o uso de metáforas sem discriminação. Veja bem, sou poeta, metáforas para mim são como arroz e feijão, como todo dia e não enjoo. Mas sejamos realistas, não se vive só de baião de dois. Carecemos de mais nutrientes, também de palavras mais exatas.

Na minha mesa nada sobra, é farta do que preciso: leio e escrevo – cozinho e como. No entanto, dizer grão não é o mesmo que dizer palha. É da natureza da linguagem ser insuficiente, por isso deve haver limite para uma palavra significar outra sem que perca seu motivo e força, já que informações nadam entre as margens dos significados e nem sempre comunicam direção porque nada informam.

Sem informação não há conhecimento (já sabemos); o que essa geração mais tem é informação (já sabemos); se informação fosse comida, o que fica em nosso organismo depois da digestão seria conhecimento (Piaget disse isso com propriedade). O que nem sempre sabemos fazer é transformar informação em ciência do conhecimento e, depois, este em técnica para o trabalho. Quem leu Dom Quixote percebeu, Cervantes criou um esquizofrênico para nos dizer que informação demais e conhecimento de menos dá merda.

De tanto me procurar em mim, sinto-me quixotesco, muitas vezes preso como o leitor que olhasse sem medo para dentro de si. O autoconhecimento é busca válida para toda gente (já sabemos!), mas incorremos no risco de, na busca do "eu verdadeiro", só aumentarmos o tamanho do nosso ego dentro do espaço minúsculo da mente obsessiva, e continuarmos sofrendo no círculo fechado do qual as palavras não prometem nos libertar, embora indiquem caminhos. Eis minha sina: escrever! Luta vã?

Com efeito, cada um de nós escolhe onde perder o juízo em prol da causa que julgamos importantíssima, quase sempre de ocasião. Da minha parte a luta vã não é com, mas pelas palavras. Esses tipos móveis corriqueiramente ajuntados ao sabor dos sentimentos, expressas no calor das investidas do temperamento, e que parecem artilharia pesada quando na verdade são inofensivas porque usadas indiscriminadamente em batalhas homéricas nas redes sociais, por exemplo.

Mas saibam, as palavras são minhas amigas, e me contam novidades quando brincam comigo de esconde-esconde. Por isso, em março, estarei lançando meu segundo livro de poemas pela Editora Penalux. Vem aí o DEPOIS EU CONTA: DIÁRIO DOS MISERÁVEIS, minha investida (vã?) contra a supremacia da primeira pessoa do singular - o eu desfigurado que julga poder tudo e a si vê como centro do universo quando é fruto de um antropocentrismo doentio, para dizer pouco - aquele eu que não enxerga além do próprio nariz.



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