06 de maio de 2021

Nossas Letras

Butantan

“Para os que acham que Butantan, nome indígena, significa reunião de cobras, esclareço que não. O coletivo de serpentes não existe porque cobras vivem sozinhas, encontram-se apenas para acasalamento, depois voltam para suas tocas, alimentando-se de seu próprio veneno.”

Nossas Letras 27/02/2021
Sônia Machiavelli
Especial para o GCN
Um acaso feliz me levou a assistir na noite de terça-feira à apresentação do concerto Brasil Jazz Sinfônica, transmitido pela TV Cultura. Sob a regência dos maestros Duprat e Galindo, e participação do cantor Renato Braz, o evento celebrava os 120 anos do Instituto Butantan. No repertório, temas voltados à superação, cura e esperança, ou seja, à vida! Escolha perfeita para homenagear a instituição responsável por quase 100% das vacinas produzidas e aplicadas em nosso país. Antes, o grupo havia gravado um clipe, “Estão Voltando as Flores”, no belo espaço verde onde fica a sede do Instituto. Era mais uma homenagem e também um chamamento à vacinação, única maneira de combater a pandemia.

Enquanto ouvia, sentia a beleza daquele momento em que se uniam arte e ciência, dois pilares essenciais à nossa vida. E pensava na beleza da contribuição de quatro cientistas sem os quais a instituição provavelmente não teria existido da forma como se estabeleceu, sendo hoje reconhecida por sua excelência aqui e no Exterior. Foram eles: Adolfo Lutz (1855-1940); Emílio Ribas (1862-1925); Vital Brazil (1865-1950); Osvaldo Cruz (1872-1917). Contemporâneos, uniram seus talentos, esforços e propósitos para salvar milhares de vidas.

Estiveram juntos em Santos, em 1898, quando a peste bubônica dizimou parte da população. Conseguiram combatê-la promovendo o extermínio dos ratos, mas tiveram de enfrentar a fúria dos comerciantes que negavam a doença e se recusavam a desinfetar seus estabelecimentos. Antes disso, um surto de cólera na Hospedaria dos Imigrantes tinha sido debelado por esses gênios que, mesmo tomando posteriormente caminhos diversos na área sanitária, mantiveram a cooperação na luta pela vida.

Assim, ao assumir a diretoria geral de Saúde Pública em 1903, o jovem Osvaldo Cruz promoveu campanha de saneamento básico no pestilento Rio de Janeiro, então capital do país, e tomou a decisão de erradicar a febre amarela, a peste bubônica e a varíola, cuja vacinação o governo tornou obrigatória. Isso causou um motim que a imprensa da época definiu como “a mais terrível das revoltas populares da República”, com saldo de trinta mortos e mais de cem feridos. O presidente Rodrigues Alves, que interviu para erradicar as doenças e modernizar a cidade, tinha motivo também pessoal: havia perdido dois anos antes uma filha para a febre amarela.

Acreditava-se então que essa febre derivava de “miasmas”, palavra com a qual se pretendia traduzir a falta de higiene do povo. Contestando a tese, defendida até pela maioria de seus colegas, Emílo Ribas e Adolfo Lutz participaram de uma experiência inusitada. Mantiveram por alguns dias numa sala imunda alguns imigrantes, enquanto permaneceram pelo mesmo período em outra, limpa mas repleta de mosquitos dos quais desconfiavam. O resultado deixou ambos infectados, ao contrário dos imigrantes, que saíram ilesos do teste. Começava ali o caminho para a criação da vacina contra a doença transmitida pelo Aedes aegypti o memso responsável pela dengue, zika vírus e chikungunya.

Vital Brazil, que havia participado com seus colegas de várias pesquisas, em determinado momento passou a se preocupar com o grande número de mortes por picada de cobras num país que tinha nas áreas rurais a maior parte da população. Pesquisou muito até obter o primeiro soro antiofídico do mundo, injetando veneno de cobra em cavalos e recolhendo os anticorpos formados. Como não era apenas cientista, mas também humanista, impressionou-se com o número de analfabetos no campo. Tinha criado uma cartilha com indicações de como evitar as picadas e também caixas seguras para capturar cobras, escorpiões e aranhas, essenciais para a fabricação do soro. Mas como a maioria esmagadora da população era analfabeta, sentiu que seria preciso reverter a situação com urgência. Foi pioneiro na criação de classes para alfabetização de adultos.

No Brasil desmemoriado, onde a ciência agora passou a ser negada, vi poucas referências aos 120 anos do Butantan. Se não fôssemos um povo polarizado ideologicamente, e mais ainda depois da pandemia de coronavirus, certamente teríamos reedição dos raros livros que nos falam em detalhes desses idealistas e da instituição científica que vem contribuindo de forma decisiva para que os brasileiros sejam vacinados com a Coronavac, produzida em parceria com a China.

Para os que acham que Butantan, nome indígena, significa reunião de cobras, esclareço que não. O coletivo de serpentes não existe porque cobras vivem sozinhas, encontram-se apenas para acasalamento, depois voltam para suas tocas, alimentando-se de seu próprio veneno. O nome tupi Butantan quer dizer “chão duro”. Uma coincidência e tanto, pois o chão onde estão construídos os prédios da instituição é da mesma qualidade daquele que cientistas pisam. É muito duro, mas é de trilhá-lo indiferentes aos ataques das turbas ignaras que eles descobrem substâncias que salvam milhões de vidas. Inclusive as vidas dos detratores da ciência.



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