06 de maio de 2021

Nossas Letras

Humano são frágeis

“Humanos são frágeis; mas também são fortes, resilientes, criativos, com extraordiária condição adaptativa, imensamente capazes de encontrar meios de resistir.”

Nossas Letras 03/04/2021
Sônia Machiavelli
Especial para o GCN
Sobram razões para o documentário “Professor Polvo” ter sido indicado ao Oscar 2021. As imagens são hipnotizantes, a história é envolvente, o estilo aproxima o narrador do público pelo tom sereno e poético, com leves nuances de melancolia. A fotografia de Roger Horrock poderia sugerir de início uma narrativa de cunho ambientalista. Não é: a obra de arte vai muito além e nos leva a refletir de forma filosófica a respeito da vida em todas as suas etapas.

O protagonista é um polvo, animal marinho cuja capacidade cognitiva, dizem os biólogos, é maior que a de muitos mamíferos. E aquele que o mostra ao espectador é Craig Foster, cineasta que ao se sentir estressado, pelo trabalho e vida familiar, retira-se para um lugar no litoral sul-africano, próximo ao famoso “Cabo das Tormentas”, que ao ser dobrado por Vasco da Gama no final do século XV passou a se chamar “Boa Esperança”. Mais de esperanças que de tormentas se ergue o filme.

É no fundo do mar, em mergulhos diários, num trecho conhecido como floresta subaquática, onde as árvores são gigantescas algas, que o humano solitário encontra o solitário polvo, com quem estabelece ligação de amizade misteriosa e bela. Desse interesse mútuo, nasce a necessidade de fotografar o cotidiano do molusco e os mistérios da rica vida marinha. Sobre a qual, aliás, até hoje pouco sabemos, apesar de já termos ido à Lua e planejarmos colonizar Marte.

Mergulhando nas águas límpidas, Craig vai mostrando situações que encantam o olhar humano e também tocam o coração. Curiosos, vemos o polvo em sua toca e fora dela. Acompanhamos enternecidos a aproximação intencional de um de seus oito tentáculos da mão humana. Em suspense aplaudimos a agilidade inteligente ao escapar dos predadores. Rimos com a manifestação lúdica evidenciada nas brincadeiras com os peixes. Somos surpreendidos pela orientação logística. E nos comovemos perante a luta heroica pela sobrevivência, quando em um dos ataques ele perde metade de um tentáculo para o grande tubarão gato-listrado.

O cineasta-mergulhador se emociona e nós que o assistimos também, pensando no mundo selvagem que é impiedoso e indiferente, mas que não elide as belezas. Uma delas, a capacidade do tentáculo ferido de se refazer, como os rabos das lagartixas e de alguns répteis. Outra, o acasalamento complicado e silencioso. E ainda sua inacreditável habilidade para se camuflar a fim de escapar dos predadores, como vemos numa das primeiras cenas.

Diante de todos esses movimentos, acompanhados por quase um ano, Craig começa a refletir sobre a vida humana, tão parecida à vida marinha. Na profundidade dos oceanos ou na superfície da Terra, viver é arriscado, perigoso, e qualquer momento pode ser o último. Por isso percebe, ao mergulhar nas águas ou em si mesmo, que a existência é difícil para todos, independente dos reinos. Mas também é bonita. O improvável professor ensina Craig a celebrar a vida. No final dessa jornada marítima, a proximidade alegre do mergulhador ao filho adolescente Tom revela que o pai aprendeu a lição e pretende ensiná-la ao filho.

O documentário dos diretores Pippa Ehrlic e James Reed me fez pensar com Craigh, em certo momento, que somos frágeis, mesmo que estejamos no topo da cadeia alimentar. Somos frágeis, ainda que nossa espécie, dotada de consciência, seja a mais bem sucedida no planeta. Somos frágeis, apesar dos magníficos avanços da ciência e da tecnologia. Somos tão frágeis que um vírus desconhecido, invisível a olho nu, vem agindo com tal agressividade que já infectou e matou milhões ao redor do mundo, deixando desorientados governantes e governados. Ele é o maior predador dos últimos cem anos- depois de um certo presidente.

Entretanto, olho o outro lado e vejo como os humanos são fortes, resilientes, criativos, com extraordiária condição adaptativa, imensamente capazes de encontrar meios de resistir. Isso tem sido mostrado nesse caos mundial que no Brasil se tornou mais trágico. E se muitos negam o vírus e fazem ficção até em relação às mortes, é maior o número dos que acreditam no legado precioso da ciência, que vem permitindo aos pesquisadores criar vacinas em tempo recorde.

De resto, a habilidade para nos refazermos é maravilhosa. Como o tentáculo decepado que cresceu novamente, depois de algum tempo em que a ferida doeu e fez o polvo manter-se dentro de sua toca por longo tempo, também nossas partes machucadas nessa pandemia haverão de ser restauradas. Igual ao polvo no mar da vida, iremos seguir mais fortes e preparados para o enfrentamento das adversidades que, como as ondas, vão e vêm, “num indo e vindo infinito”. Isso é viver



COMENTÁRIOS

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  • José osmar
    08/04/2021
    Muito bonito se não fosse a mediocridade política invasiva e desnescesaria.
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