DESPEDIDA

DESPEDIDA

Contagem regressiva: camelôs irregulares do Itaú têm uma semana para sair da praça

Contagem regressiva: camelôs irregulares do Itaú têm uma semana para sair da praça

Das 106 barraquinhas instaladas na Praça Dom Pedro II, 31 foram identificadas como irregulares pela Prefeitura de Franca. Todas essas terão que se retirar até o dia 5 de dezembro, daqui há uma semana. Contagem regressiva para muitos que estão há anos no local e dedicaram sua vida para poder trabalhar na Praça.

Das 106 barraquinhas instaladas na Praça Dom Pedro II, 31 foram identificadas como irregulares pela Prefeitura de Franca. Todas essas terão que se retirar até o dia 5 de dezembro, daqui há uma semana. Contagem regressiva para muitos que estão há anos no local e dedicaram sua vida para poder trabalhar na Praça.

Por Higor Goulart | 28/11/2021 | Tempo de leitura: 6 min
da Redação

Por Higor Goulart
da Redação

28/11/2021 - Tempo de leitura: 6 min

Dirceu Garcia/GCN

Elaine Padilha Pereira, de 33 anos, é uma que está prestes a perder seu ponto de trabalho: “Me sinto injustiçada com tudo isso. Eu vim aqui para trabalhar”

Em exatamente uma semana, no próximo domingo, dia 5 de dezembro, 31 proprietários das barraquinhas da praça Dom Pedro II, no Centro, perderão o seu ponto de sustento. Mesmo após meses de luta, na tentativa de regularização, esses camelôs continuam irregulares pela Vigilância Sanitária e, caso não retirem até o prazo, pagarão uma multa no valor de R$ 1,2 mil.

Com a imposição, alguns desses desistiram do trabalho no Mercado Popular Urbano. Sobraram 13, que, desde setembro, quando a Prefeitura realizou um censo e constatou as irregularidades, têm tentado lutar pela regularização e manter o trabalho que, no caso de alguns, foi dedicada toda uma vida.

As tentativas não foram suficientes. Taxas foram pagas, documentos foram entregues, mas nenhum retorno positivo foi conquistado. A data para retirada foi se aproximando e muitos desses ficaram desesperados sobre o que vão fazer da sua vida nos próximos meses.

Elaine Padilha Pereira, de 33 anos, é mãe solteira de um menino de 8 anos. É uma dessas que está próxima de perder seu ganha pão daqui uma semana. A moradora do Residencial Palermo tem metade da sua vida dedicada às barraquinhas. São cinco desses anos com um ‘negócio’ próprio de roupas. “Eu trabalho aqui faz 15 anos, mas que tenho a minha barraquinha faz cinco. Comecei trabalhando para o meu tio, vendendo acessórios. Mas, depois, como consegui colocar minha barraquinha, comecei a vender roupa”, contou.

Seu filho, Arthur, tem pouco entendimento de toda situação, mas já sabe que sua mãe não trabalhará mais no lugar onde ele foi criado. “Ele chorou muito mesmo. Me diz que é injusto. Nessa idade ele já sabe que é injusto o que eles estão fazendo com a gente”.

Bastante decepcionada com toda essa situação, Elaine conta que sempre tentou a regularização do seu negócio. Mas, durante o governo do prefeito Gílson de Souza (DEM), a atenção necessária ao Mercado Popular Urbano não foi dada e, com isso, ela ficou anos ‘irregular’. “Sempre corri atrás para regularizar. Fiquei anos na lista de espera, mas nunca que fizeram isso. Eles nem falavam com a gente. Quando falavam, diziam que não fariam inscrição”.

Como boa parte da sua vida foi voltada a barraquinha, ela não sabe o que fará da vida. “Me sinto injustiçada com tudo isso. Eu não estou aqui para brincar. Vim para poder trabalhar. Pensei que com todo esse tempo que trabalho aqui daria certo para mim. Fico triste com o prefeito não se sensibilizar com isso. Não sei o que vou fazer agora”, afirmou. Nem mesmo sabe se seu filho Arthur ganhará o presente da Natal que tanto espera. “Estou aqui para dar um sustento para ele, comprar comida e dar roupas. Sem o trabalho, não vou ter condições nem de dar presente de Natal para ele”.

Rafael Mendonça Cunha, de 32 anos, é um dos que mais tem se empenhado na luta pra manter seu negócio. Discursou na Câmara Municipal dos Vereadores, esteve incessantemente na Vigilância Sanitária e na Prefeitura de Franca. Tudo isso na tentativa de continuar trabalhando. Também não foi suficiente. “Sinto um despreso da administração pública. Nós não estamos invadindo nada. Tem muito espaço aqui. Não estou pedindo nada, apenas trabalho. Estou pedindo emprego”.

Assim como Elaine, ele tem boa parte dos seus 32 anos de vida dedicados ao seu negócio. São 15 anos vendendo brinquedos em sua barraca. Toda uma história que também terminará com um triste final. “Eu não entrei aqui durante a pandemia. Estou aqui há 15 anos. Tenho várias fotos dos meus anos de trabalho aqui. É metade da vida dedicada à barraca. Perder isso aqui será uma mancha na minha história. Sou morador da cidade. Nasci aqui em Franca. Pago todos os meus impostos. Uma mancha no meu currículo é não poder trabalhar”.

Sem desanimar, ele segue com sua barraquinha de pé nestes últimos dias, seja em dia de chuva - como foi nesta última sexta-feira, 26 -, ou em um dia que o sol está de rachar. Tudo isso para tentar vender alguns dos muitos brinquedos que comprou para vender nesse fim de ano. “Tenho vários produtos aqui. Não tenho como liquidar isso em um só mês. Foi todo um investimento que fiz para esse fim de ano, na esperança de recuperar o que foi perdido na pandemia. Chega nesse momento, numa oportunidade minha que seria vender, mas eu não terei a possibilidade”.

Já na próxima semana, quando terá que retirar sua barraca, Rafael até brinca sobre o que fará nos próximos meses. “Se eu não tiver oportunidade de trabalhar, já que o prefeito está me tirando isso, acho que vou pegar uma filha na Assistência Social e pegar uma cesta básica. Já que ele só quer dar cesta básica, vou aproveitar essa oportunidade. Mas, não quero isso. Quero poder trabalhar”.

Mas, ao falar sério, ele lamenta que perderá o seu trabalho de toda a vida. “Nós comerciantes vendemos o almoço para termos a janta. Não tenho reserva nenhum para o fim de ano. Não tenho nenhuma meta ou ideia para o ano que vem”, finalizou.

Huli Cristina Alves tem 28 anos. Não está há tanto tempo como os outros, tendo apenas quatro anos vendendo brinquedos na praça, mas também tem muito a perder. Junto de seu marido, vendem os produtos para sustentar seus três filhos. “Me sinto ameaçada. Tenho três filhos para criar. Só que hoje em dia as coisas não estão fáceis. Lá, foi a única forma que encontrei para complementar a renda da minha casa, mesmo com todos os altos e baixos. É muita injustiça isso”.

A luta de Huli é diária. Muitas vezes, esteve vendendo apenas para comprar um litro de leite e alimentar seus filhos. Isso até os últimos dias da sua barraquinha, como foi na última sexta. “Hoje (dia 26), vendi um brinquedo de R$ 15 para conseguir comprar dois litros de leite e alguns pães pros meninos”.

Sem qualquer reserva financeira pros próximos meses, ela não sabe como fará para continuar a comprar os mantimentos para sua casa. Essa falta de dinheiro se dá muito até pelo investimento feio para o fim de ano. Mas ela não poderá ter um retorno. “Como vamos passar o ano que vem? Não tenho nenhuma reserva. Estou lá há um bom tempo e investi todo o meu dinheiro, mesmo na pandemia, só para ter um retorno neste fim de ano. Agora, a Prefeitura, mesmo comigo mandando todos os documentos necessários, não me ajudou”.

“Eu suplico por ajuda. Não sei a quem recorrer. Meu marido e eu estamos desesperados. Já viajamos para São Paulo, Paraguai, tudo para atender aquele cidadão de baixa-renda que comprar com a gente aqui no Mercado Popular Urbano. Já não sei mais o que fazer”, finalizou Huli.

Em exatamente uma semana, no próximo domingo, dia 5 de dezembro, 31 proprietários das barraquinhas da praça Dom Pedro II, no Centro, perderão o seu ponto de sustento. Mesmo após meses de luta, na tentativa de regularização, esses camelôs continuam irregulares pela Vigilância Sanitária e, caso não retirem até o prazo, pagarão uma multa no valor de R$ 1,2 mil.

Com a imposição, alguns desses desistiram do trabalho no Mercado Popular Urbano. Sobraram 13, que, desde setembro, quando a Prefeitura realizou um censo e constatou as irregularidades, têm tentado lutar pela regularização e manter o trabalho que, no caso de alguns, foi dedicada toda uma vida.

As tentativas não foram suficientes. Taxas foram pagas, documentos foram entregues, mas nenhum retorno positivo foi conquistado. A data para retirada foi se aproximando e muitos desses ficaram desesperados sobre o que vão fazer da sua vida nos próximos meses.

Elaine Padilha Pereira, de 33 anos, é mãe solteira de um menino de 8 anos. É uma dessas que está próxima de perder seu ganha pão daqui uma semana. A moradora do Residencial Palermo tem metade da sua vida dedicada às barraquinhas. São cinco desses anos com um ‘negócio’ próprio de roupas. “Eu trabalho aqui faz 15 anos, mas que tenho a minha barraquinha faz cinco. Comecei trabalhando para o meu tio, vendendo acessórios. Mas, depois, como consegui colocar minha barraquinha, comecei a vender roupa”, contou.

Seu filho, Arthur, tem pouco entendimento de toda situação, mas já sabe que sua mãe não trabalhará mais no lugar onde ele foi criado. “Ele chorou muito mesmo. Me diz que é injusto. Nessa idade ele já sabe que é injusto o que eles estão fazendo com a gente”.

Bastante decepcionada com toda essa situação, Elaine conta que sempre tentou a regularização do seu negócio. Mas, durante o governo do prefeito Gílson de Souza (DEM), a atenção necessária ao Mercado Popular Urbano não foi dada e, com isso, ela ficou anos ‘irregular’. “Sempre corri atrás para regularizar. Fiquei anos na lista de espera, mas nunca que fizeram isso. Eles nem falavam com a gente. Quando falavam, diziam que não fariam inscrição”.

Como boa parte da sua vida foi voltada a barraquinha, ela não sabe o que fará da vida. “Me sinto injustiçada com tudo isso. Eu não estou aqui para brincar. Vim para poder trabalhar. Pensei que com todo esse tempo que trabalho aqui daria certo para mim. Fico triste com o prefeito não se sensibilizar com isso. Não sei o que vou fazer agora”, afirmou. Nem mesmo sabe se seu filho Arthur ganhará o presente da Natal que tanto espera. “Estou aqui para dar um sustento para ele, comprar comida e dar roupas. Sem o trabalho, não vou ter condições nem de dar presente de Natal para ele”.

Rafael Mendonça Cunha, de 32 anos, é um dos que mais tem se empenhado na luta pra manter seu negócio. Discursou na Câmara Municipal dos Vereadores, esteve incessantemente na Vigilância Sanitária e na Prefeitura de Franca. Tudo isso na tentativa de continuar trabalhando. Também não foi suficiente. “Sinto um despreso da administração pública. Nós não estamos invadindo nada. Tem muito espaço aqui. Não estou pedindo nada, apenas trabalho. Estou pedindo emprego”.

Assim como Elaine, ele tem boa parte dos seus 32 anos de vida dedicados ao seu negócio. São 15 anos vendendo brinquedos em sua barraca. Toda uma história que também terminará com um triste final. “Eu não entrei aqui durante a pandemia. Estou aqui há 15 anos. Tenho várias fotos dos meus anos de trabalho aqui. É metade da vida dedicada à barraca. Perder isso aqui será uma mancha na minha história. Sou morador da cidade. Nasci aqui em Franca. Pago todos os meus impostos. Uma mancha no meu currículo é não poder trabalhar”.

Sem desanimar, ele segue com sua barraquinha de pé nestes últimos dias, seja em dia de chuva - como foi nesta última sexta-feira, 26 -, ou em um dia que o sol está de rachar. Tudo isso para tentar vender alguns dos muitos brinquedos que comprou para vender nesse fim de ano. “Tenho vários produtos aqui. Não tenho como liquidar isso em um só mês. Foi todo um investimento que fiz para esse fim de ano, na esperança de recuperar o que foi perdido na pandemia. Chega nesse momento, numa oportunidade minha que seria vender, mas eu não terei a possibilidade”.

Já na próxima semana, quando terá que retirar sua barraca, Rafael até brinca sobre o que fará nos próximos meses. “Se eu não tiver oportunidade de trabalhar, já que o prefeito está me tirando isso, acho que vou pegar uma filha na Assistência Social e pegar uma cesta básica. Já que ele só quer dar cesta básica, vou aproveitar essa oportunidade. Mas, não quero isso. Quero poder trabalhar”.

Mas, ao falar sério, ele lamenta que perderá o seu trabalho de toda a vida. “Nós comerciantes vendemos o almoço para termos a janta. Não tenho reserva nenhum para o fim de ano. Não tenho nenhuma meta ou ideia para o ano que vem”, finalizou.

Huli Cristina Alves tem 28 anos. Não está há tanto tempo como os outros, tendo apenas quatro anos vendendo brinquedos na praça, mas também tem muito a perder. Junto de seu marido, vendem os produtos para sustentar seus três filhos. “Me sinto ameaçada. Tenho três filhos para criar. Só que hoje em dia as coisas não estão fáceis. Lá, foi a única forma que encontrei para complementar a renda da minha casa, mesmo com todos os altos e baixos. É muita injustiça isso”.

A luta de Huli é diária. Muitas vezes, esteve vendendo apenas para comprar um litro de leite e alimentar seus filhos. Isso até os últimos dias da sua barraquinha, como foi na última sexta. “Hoje (dia 26), vendi um brinquedo de R$ 15 para conseguir comprar dois litros de leite e alguns pães pros meninos”.

Sem qualquer reserva financeira pros próximos meses, ela não sabe como fará para continuar a comprar os mantimentos para sua casa. Essa falta de dinheiro se dá muito até pelo investimento feio para o fim de ano. Mas ela não poderá ter um retorno. “Como vamos passar o ano que vem? Não tenho nenhuma reserva. Estou lá há um bom tempo e investi todo o meu dinheiro, mesmo na pandemia, só para ter um retorno neste fim de ano. Agora, a Prefeitura, mesmo comigo mandando todos os documentos necessários, não me ajudou”.

“Eu suplico por ajuda. Não sei a quem recorrer. Meu marido e eu estamos desesperados. Já viajamos para São Paulo, Paraguai, tudo para atender aquele cidadão de baixa-renda que comprar com a gente aqui no Mercado Popular Urbano. Já não sei mais o que fazer”, finalizou Huli.

5 COMENTÁRIOS

A responsabilidade pelos comentários é exclusiva dos respectivos autores. Por isso, os leitores e usuários desse canal encontram-se sujeitos às condições de uso do portal de internet do Portal GCN e se comprometem a respeitar o Código de Conduta On-line do GCN.

Ainda não é assinante?

Clique aqui para fazer a assinatura e liberar os comentários no site.

  • Paula Tejano
    28/11/2021
    Acho que a prefeitura pode levá-los pra outro lugar, tipo algum espaço dentro do champagnat, com mais infra estrutura e preservar o espaço verde da praça do Itaú
  • Juca Lemes
    28/11/2021 1 Curtiu
    Eu apoio 100% a decisão da prefeitura, o centro da cidade perdeu totalmente a identidade, virou uma baderna, tudo errado, tem mesmo que por ordem na casa. Parabéns prefeitura pela iniciativa!!
  • Darsio
    28/11/2021
    Prefeito covarde! Fala fino com a ACIF e, banca o tigrão com os pequenos, como deixou bem claro o vereador Pelizaro. Quase 1 milhão de reais dos nossos suados impostos para atender a interesses particulares da ACIF e, tudo normal. SE não tem interesse ou competência para gerar empregos, que o prefeito tenha um mínimo de dignidade para não tirar o pouco que está existindo.
  • Pedro de Lara
    28/11/2021
    Eu fico é de cara a barraquinha de salgado. A vigilancia sanitaria enche o saco de todo restaurante, comércio que lida com comida e ali pode cheio de pombo em volta, outro lugar tbm é o supermercado do paridicim, cheio de irregularidades e nenhuma autoridade toma atitude. É um absurdo isso. Tem que por ordem mesmo. Que leve esse pessoal para outro lugar com infraestrutura e tudo regulamentado.
  • Iraci mattos domingos
    29/11/2021
    tirar o trabalho das pessoas, e desumano, estao ali, defendendo sua familia, buscando com dificuldade p/trazerem par a casa o sustento, eles, nao invadiram praça alguma, apenas querem trabalhar, e preciso socorre-los de todas a formas possiveis, para nao serem tirados dali, quem rtem um emprego garantido com carteira asinada, e que apoia esas decisoes absurdas, mas Deus vai ouvir a vos dos que necfessitam, apenas, liberdade parfa trabalhar.