SONIA MACHIAVELLI

SONIA MACHIAVELLI

Literatura e Liberdade

Literatura e Liberdade

Perturbados há mais de dois anos por ondas de uma pandemia que parece não ter fim, recuando para avançar com o vírus em novas variantes, nós, brasileiros, estamos nos esquecendo de duas celebrações importantes neste 2022 – a da Independência do Brasil, em 1822 e a da Semana de Arte Moderna, em 1922. Leia mais no artigo de Sonia Machiavelli.

Perturbados há mais de dois anos por ondas de uma pandemia que parece não ter fim, recuando para avançar com o vírus em novas variantes, nós, brasileiros, estamos nos esquecendo de duas celebrações importantes neste 2022 – a da Independência do Brasil, em 1822 e a da Semana de Arte Moderna, em 1922. Leia mais no artigo de Sonia Machiavelli.

Por Sonia Machiavelli | 08/01/2022 | Tempo de leitura: 5 min
especial para GCN

Por Sonia Machiavelli
especial para GCN

08/01/2022 - Tempo de leitura: 5 min

Perturbados há mais de dois anos por ondas de uma pandemia que parece não ter fim, recuando para avançar com o vírus em novas variantes, nós, brasileiros, estamos nos esquecendo de duas celebrações importantes neste 2022 – a da Independência do Brasil, em 1822 e a da Semana de Arte Moderna, em 1922. Bicentenário e centenário remetem ao desejo de autonomia, mereceriam comemorações que, pelo andar da carruagem, permanecerão mornas, se tanto. É uma pena, porque essas datas históricas representam marcos de superação e conquista, sem as quais não seríamos o que hoje somos.

Literatura e sociedade caminham juntas. Podemos conhecer o caráter de um povo através da sua literatura porque se ela é autêntica refletirá costumes, hábitos, anseios, esperanças e tudo aquilo a que chamamos cultura. Mas literatura não é apenas conjunto de textos, por mais talentosos sejam os escritores. Literatura pressupõe autores, a sociedade na qual se inserem, a época em que vivem e a comunidade de leitores. Junte-se a esses pilares a crítica literária, cuja função é desvelar o entrelaçamento de conteúdos dentro de cada obra e entre elas, bem como seu valor no meio em que se insere.

Nossa literatura divide-se em fases, de seu nascimento ao ponto em que se encontra hoje. Desde o Descobrimento são 522 anos de escrita. A Carta de Caminha, por conta dos dons estilísticos do escrivão da frota, impõe-se como primeiro documento literário. Ela sinaliza o começo de uma literatura escrita por cronistas portugueses sobre a nova terra e segue até 1750, quando os primeiros movimentos de revolta contra a metrópole passam a perfilar a escola mineira. As próximas décadas, sob impacto das punições da Corte contra os inconfidentes, será um período de produções sem brilho. É com a Independência, em 1822, que surgem registros dos primeiros autores em tentativa de ruptura da matriz lusitana, procurando caminho próprio, ainda que tateantes, apoiados no romantismo e simbolismo, correntes literárias de gênese europeia.

Será apenas no começo do século XX que um grupo de artistas sintonizados com a ideia de modernidade que pipocava na Europa, rebelou-se contra cânones e regras tradicionais. Queriam novas formas estéticas e literárias. Os moldes acadêmicos estavam gastos, exauridos de sua função de incomodar e inspirar, dois dos objetivos de todas as artes. Na sociedade brasileira, a fundação da Revista do Brasil, a instalação da Liga de Defesa Nacional e a campanha em favor do serviço militar obrigatório criam um contexto mais favorável à gênese do Modernismo nas artes brasileiras.

Em nosso país o movimento teve três fases bem distintas. A primeira, a Semana de Arte Moderna, começou estrepitosamente em São Paulo em 1922 . Colocou em evidência Mário de Andrade, Oswáld de Andrade, Cassiano Ricardo e Menotti del Picchia. Junto a outros eles se manifestaram não só no Teatro Municipal de São Paulo, nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro daquele ano, mas também nas diversas revistas publicadas até 1928. A segunda fase, com ponto de partida no ano seguinte, será marcada pela ficção de José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo e Ciro dos Anjos. A terceira floresce em 1949, com a publicação das primeiras obras críticas de Álvaro Lins e Antônio Cândido, que avaliaram todo o processo literário em seus momentos decisivos.

Depois de 1950 viria o que hoje consideramos Pós-Modernismo e se caracteriza pela diversidade de obras, na medida que o Brasil e o mundo experimentaram mudanças drásticas com o fim da Segunda Guerra Mundial e sua consequência imediata, a ameaça da Guerra Fria. Em nosso país, esse período foi marcado por forte instabilidade política, que nos levará ao golpe militar de 1964, com liberdades individuais suprimidas, censura a publicações, eleições diretas suspensas. Só vinte e um anos depois retomaríamos a vida democrática.

A literatura não ficaria imune a tudo isso e as obras que passam a ser publicadas na Nova República mostram autores mais amadurecidos, autênticos, inovadores. Na prosa surgem Guimarães Rosa, com seu estilo repleto de arcaísmos, neologismos e criações autorais; Clarice Lispector e seu questionamento intimista sobre o ser humano; Dalton Trevisan e o foco na sociedade brasileira, retratada com ironia e sarcasmo; Rubem Fonseca e a opção pelo gênero policial; Fernando Sabino e seu amplo domínio da crônica; Rachel de Queiroz e a habilidade de ficcionalizar fatos históricos .

Na poesia, João Cabral de Melo Neto constrói poemas calcados na realidade com estilo enxuto; Carlos Drummond de Andrade apresenta uma poesia objetiva mas profunda, de linguagem mais popular e tom irônico ; Ferreira Gullar combina ternura e acidez na denúncia de injustiças sociais; Mário Quintana ensina que o simples não é fácil; Adélia Prado eleva sua voz em versos que misturam sagrado e erótico num timbre até então não reconhecível nas poetas do Brasil.

A Semana de Arte Moderna foi portanto semente vigorosa, cujos frutos se revelaram em obras onde se impuseram “a prioridade do sujeito sobre o objeto, a captação do mistério das coisas, a complexidade e as sutilezas dos estados de alma, a magia verbal encerrada nas palavras” e também um regionalismo incipiente que ganhará força com a adesão de escritores engajados. Mas, é preciso dizer, a Semana não foi apenas literária. A renovação buscada na literatura aconteceu também na música, com Villa-Lobos; na pintura, com Tarsila do Amaral e Anita Malfatti; na escultura, com Brecheret.

Antecipando-se às publicações que provavelmente aparecerão nesse 2022 , em comemoração ao centenário da “Semana de Arte Moderna”, os professores e escritores francanos Luiz Cruz de Oliveira e Marilurdes Cruz Borges lançaram no segundo semestre de 2021 excelente estudo com o título “A Semana- O Antes e o Depois”. No primeiro texto, Alerta!, construindo analogia entre escritor e desbravador, eles dizem: “A comparação facilita o entendimento de que a atual fase da literatura em nosso país é resultante de permanente abrir de caminhos, de uma constante e paradoxal busca de independência, sem isolamento, e de aperfeiçoamento. Na literatura, riqueza, autenticidade, prodigalidade só podem ser avaliadas pelo percurso e pelas diversas travessias que vão deixando marcos orientadores para os caminhantes”.

Leiamos Luiz Cruz de Oliveira e Marilurdes Cruz Borges. É maneira de celebrar um centenário que não pode passar em branco. E fiquemos à espera de títulos sobre o bicentenário da Independência, data que merece profunda reflexão sobre a forma como o Brasil lida desde 1822 com uma autonomia política que deveria ter nos conduzido a caminhos de maiores progresso, lucidez, civilidade e justiça.

Perturbados há mais de dois anos por ondas de uma pandemia que parece não ter fim, recuando para avançar com o vírus em novas variantes, nós, brasileiros, estamos nos esquecendo de duas celebrações importantes neste 2022 – a da Independência do Brasil, em 1822 e a da Semana de Arte Moderna, em 1922. Bicentenário e centenário remetem ao desejo de autonomia, mereceriam comemorações que, pelo andar da carruagem, permanecerão mornas, se tanto. É uma pena, porque essas datas históricas representam marcos de superação e conquista, sem as quais não seríamos o que hoje somos.

Literatura e sociedade caminham juntas. Podemos conhecer o caráter de um povo através da sua literatura porque se ela é autêntica refletirá costumes, hábitos, anseios, esperanças e tudo aquilo a que chamamos cultura. Mas literatura não é apenas conjunto de textos, por mais talentosos sejam os escritores. Literatura pressupõe autores, a sociedade na qual se inserem, a época em que vivem e a comunidade de leitores. Junte-se a esses pilares a crítica literária, cuja função é desvelar o entrelaçamento de conteúdos dentro de cada obra e entre elas, bem como seu valor no meio em que se insere.

Nossa literatura divide-se em fases, de seu nascimento ao ponto em que se encontra hoje. Desde o Descobrimento são 522 anos de escrita. A Carta de Caminha, por conta dos dons estilísticos do escrivão da frota, impõe-se como primeiro documento literário. Ela sinaliza o começo de uma literatura escrita por cronistas portugueses sobre a nova terra e segue até 1750, quando os primeiros movimentos de revolta contra a metrópole passam a perfilar a escola mineira. As próximas décadas, sob impacto das punições da Corte contra os inconfidentes, será um período de produções sem brilho. É com a Independência, em 1822, que surgem registros dos primeiros autores em tentativa de ruptura da matriz lusitana, procurando caminho próprio, ainda que tateantes, apoiados no romantismo e simbolismo, correntes literárias de gênese europeia.

Será apenas no começo do século XX que um grupo de artistas sintonizados com a ideia de modernidade que pipocava na Europa, rebelou-se contra cânones e regras tradicionais. Queriam novas formas estéticas e literárias. Os moldes acadêmicos estavam gastos, exauridos de sua função de incomodar e inspirar, dois dos objetivos de todas as artes. Na sociedade brasileira, a fundação da Revista do Brasil, a instalação da Liga de Defesa Nacional e a campanha em favor do serviço militar obrigatório criam um contexto mais favorável à gênese do Modernismo nas artes brasileiras.

Em nosso país o movimento teve três fases bem distintas. A primeira, a Semana de Arte Moderna, começou estrepitosamente em São Paulo em 1922 . Colocou em evidência Mário de Andrade, Oswáld de Andrade, Cassiano Ricardo e Menotti del Picchia. Junto a outros eles se manifestaram não só no Teatro Municipal de São Paulo, nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro daquele ano, mas também nas diversas revistas publicadas até 1928. A segunda fase, com ponto de partida no ano seguinte, será marcada pela ficção de José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo e Ciro dos Anjos. A terceira floresce em 1949, com a publicação das primeiras obras críticas de Álvaro Lins e Antônio Cândido, que avaliaram todo o processo literário em seus momentos decisivos.

Depois de 1950 viria o que hoje consideramos Pós-Modernismo e se caracteriza pela diversidade de obras, na medida que o Brasil e o mundo experimentaram mudanças drásticas com o fim da Segunda Guerra Mundial e sua consequência imediata, a ameaça da Guerra Fria. Em nosso país, esse período foi marcado por forte instabilidade política, que nos levará ao golpe militar de 1964, com liberdades individuais suprimidas, censura a publicações, eleições diretas suspensas. Só vinte e um anos depois retomaríamos a vida democrática.

A literatura não ficaria imune a tudo isso e as obras que passam a ser publicadas na Nova República mostram autores mais amadurecidos, autênticos, inovadores. Na prosa surgem Guimarães Rosa, com seu estilo repleto de arcaísmos, neologismos e criações autorais; Clarice Lispector e seu questionamento intimista sobre o ser humano; Dalton Trevisan e o foco na sociedade brasileira, retratada com ironia e sarcasmo; Rubem Fonseca e a opção pelo gênero policial; Fernando Sabino e seu amplo domínio da crônica; Rachel de Queiroz e a habilidade de ficcionalizar fatos históricos .

Na poesia, João Cabral de Melo Neto constrói poemas calcados na realidade com estilo enxuto; Carlos Drummond de Andrade apresenta uma poesia objetiva mas profunda, de linguagem mais popular e tom irônico ; Ferreira Gullar combina ternura e acidez na denúncia de injustiças sociais; Mário Quintana ensina que o simples não é fácil; Adélia Prado eleva sua voz em versos que misturam sagrado e erótico num timbre até então não reconhecível nas poetas do Brasil.

A Semana de Arte Moderna foi portanto semente vigorosa, cujos frutos se revelaram em obras onde se impuseram “a prioridade do sujeito sobre o objeto, a captação do mistério das coisas, a complexidade e as sutilezas dos estados de alma, a magia verbal encerrada nas palavras” e também um regionalismo incipiente que ganhará força com a adesão de escritores engajados. Mas, é preciso dizer, a Semana não foi apenas literária. A renovação buscada na literatura aconteceu também na música, com Villa-Lobos; na pintura, com Tarsila do Amaral e Anita Malfatti; na escultura, com Brecheret.

Antecipando-se às publicações que provavelmente aparecerão nesse 2022 , em comemoração ao centenário da “Semana de Arte Moderna”, os professores e escritores francanos Luiz Cruz de Oliveira e Marilurdes Cruz Borges lançaram no segundo semestre de 2021 excelente estudo com o título “A Semana- O Antes e o Depois”. No primeiro texto, Alerta!, construindo analogia entre escritor e desbravador, eles dizem: “A comparação facilita o entendimento de que a atual fase da literatura em nosso país é resultante de permanente abrir de caminhos, de uma constante e paradoxal busca de independência, sem isolamento, e de aperfeiçoamento. Na literatura, riqueza, autenticidade, prodigalidade só podem ser avaliadas pelo percurso e pelas diversas travessias que vão deixando marcos orientadores para os caminhantes”.

Leiamos Luiz Cruz de Oliveira e Marilurdes Cruz Borges. É maneira de celebrar um centenário que não pode passar em branco. E fiquemos à espera de títulos sobre o bicentenário da Independência, data que merece profunda reflexão sobre a forma como o Brasil lida desde 1822 com uma autonomia política que deveria ter nos conduzido a caminhos de maiores progresso, lucidez, civilidade e justiça.

1 COMENTÁRIOS

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  • Plínio Cantieri Murta Vieira
    10/01/2022
    Que aula !!!, Professora Sônia. Que clareza meridiana na apresentação do tema. Que orgulho e honra poder continuar a ler-ouvir-vivenciar toda sua sabedoria e elegância na escrita. Parabéns , também, ao Prof.Luiz Cruz e a Professora Marilurdes. Foi, simplesmente, fantástico ler um texto tão leve e bem elaborado ,nesses dias tão densos e sombrios que estamos vivendo. Um enorme abraço de seu eterno aluno e fã incondicional. Obrigado, Plínio.