A avó da vuvuzela

Por: José Antonio Pereira

Provavelmente, foi minha mãe a primeira a alertar sobre o perigo do uso de fogos de artifício. Nos anos 50, meus avós moravam na rua Ângelo Pedro, então um lamaçal, quando houve um acidente na fábrica de fogos Scarabucci que matou alguns operários, que ficava bem de frente para a casa deles. A partir de então, minha mãe vigiava as brincadeiras que eu, meus irmãos e primos fazíamos na voçoroca que ficava atrás da fábrica, onde hoje está a Unimed.


Talvez por isso, sempre detestei o barulho de rojões, bombinhas, foguetes e assemelhados, inclusive buzinas, prefiro o silêncio. Época de copa do mundo e feriado de Aparecida é um tormento, aquele foguetório inútil, penso eu. Som alto, só rock and roll e com fone de ouvido. Até recomendo a leitura de um romance, O Caso da Chácara Chão, do Domingos Pellegrini, ganhou um prêmio Jabuti, é muito engraçado e trata da busca do sossego diante do barulho e do caos das cidades.


Quarenta anos atrás, sai de Franca para estudar arquitetura em Mogi das Cruzes. Como tinha amigos em Jacareí, passava finais de semana lá. Na praça principal, chamava minha atenção a estátua em homenagem ao corneteiro Jesus, um soldado da Força Expedicionária Brasileira morto nos campos de batalha da Itália. Franca teve seus pracinhas, mas não fez um monumento a eles. Meu tio Walter Gonçalves chegou a ser convocado, foi para o Rio fazer o treinamento militar, mas a guerra acabou antes, felizmente para nossa família.


Eu ficava pensando se um corneteiro na guerra não era um alvo fácil, se não foi o som que o traiu diante do fogo alemão. Quando estudava arquitetura, apareceu a corneta em Franca. Acho que o Cláudio Mortari, técnico de basquete do Sírio, deve ser meio surdo até hoje. Havia um famoso professor e torcedor que ficava atrás do banco de reservas do Sírio buzinando a avó da vuvuzela todas as vezes que o técnico pedia tempo. Enquanto durava o tempo técnico, ele buzinava sem parar aquele troço chato e ensurdecedor, atrapalhando as alterações táticas do time adversário. Acho que até o Pedroca se irritava com aquilo.


Passados tantos anos, veio a Copa da África e a tal da vuvuzela reapareceu com força, parece um enxame de abelhas assassinas a atrapalhar quem gosta apenas de ver futebol. Além do “cala a boca, Galvão”, faço como dom Paulo Evaristo Arns ensinou, desligo o som da TV e coloco música, só vejo o jogo, não ouço nem vuvuzelas nem comentários toscos.


Mas o pior é que o “chato” da vuvuzela está por toda a parte. Em dia de jogo do Brasil, seis horas da manhã ele está acordando a vizinhança do bairro onde moro, vuvuzelando e soltando foguetes e bombinhas. Temo apenas que esta chatice chegue aos nossos campos de futebol e o som das abelhas perdure mais que a Copa.

 

Mauro Ferreira
Arquiteto, professor e escritor

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