Nem tudo tem remédio

Por: José Antonio Pereira

Que remédio! Nem amargo nem doce. Era apenas a frase com que demonstrava sua habitual resignação.


Era a longa fila do banco com inúmeras cabeças à frente; o salário minguado que acabava antes do fim do mês; o advogado arrogante que o deixava falando sozinho antes de terminar a conversa, ignorando que ele havia pagado pelo serviço (ainda bem que hoje não temos este tipo de profissional - será?); a falta de livros quando a vontade de conhecimento era tanta; voltar a sua terra natal, sonho acalentado, esquecido, dolorido; e por fim, admitir a própria decadência física, contrariando a lucidez do espírito.


Se era apenas conformismo barato, ou virtude alardeada pelas igrejas , isso eu não sei, sei que era parte intrínseca dele.


Que remédio! Ouvir essa frase sempre me deixava revoltada, arroubos da juventude, quando se acredita que se pode mudar o mundo, ou pior, as pessoas.


Foi então que surgiu na nossa rua um italiano falastrão. Tinha um carro, de que não me lembro a marca, nem o ano, mas inspirava respeito, afinal quase ninguém tinha sua própria condução


Foi interessante a primeira vez que se cruzaram. Fazia um frio de rachar. Não havia tanto apelo consumista, e, portanto, nos arranjávamos como podíamos naqueles dias de muito frio.


Do alpendrezinho, encolhido, enregelado, ele olhava o tempo cinza, carrancudo. Viu, então, o outro em manga de camisa, imponente lavando o carro.


- Tarde! Que calor , não é? - diz o italiano.


Ele se encolheu mais ainda de frio e na sua humildade. - È! - Foi a resposta seca.


O outro gostou da demonstração de fragilidade e veio todo presunçoso. Lá ficaram por um bom tempo. Da cozinha se ouvia a voz e as gargalhadas de apenas um.


- Que sujeito convencido! - Disse depois, conversando conosco.


- E por que você não retrucou? - perguntei-lhe aflita, conjecturando que deveria também ter falado de suas qualidades, do bairro, ao invés de ficar só ouvindo.


- Que remédio! O homem não parava de falar, não colocava nem ponto nem vírgula pra gente entrar na conversa.


Não sei como se tornaram amigos, por pouco tempo, é bem verdade, pois o outro se mudou logo para um lugar aonde ninguém nos acompanha. Sina de todo mortal.


- Que remédio...

 

Marina Garcia Garcia
Pedagoga e professora de Português

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