‘As pequenas memórias’

Por: José Antonio Pereira

A palavra permanece Imortal, apesar da morte de José Saramago, o primeiro (e único até agora) Nobel de Literatura, 1998. O autor descobriu tardiamente as letras, cresceu em uma casa onde não havia um livro sequer, e manteve suas raízes bem ficadas dentro de si, sem temor de mostrá-las e defendê-las, defrontando com Poderes instituídos da Religião e da Política.


Tardiamente descoberto, pelo menos entre a maioria dos escritores, com o Memorial do Convento, publicado em 1982.


“As pequenas memórias”, de 2006, não é um livro convencional: Saramago demonstra que a memória pode se tornar ficção, ou a própria vida tem sabor de ficção aos olhos de quem a vive. Várias histórias podem ser criadas a partir dos acontecimentos e a partir de quem os interpreta.


Saramago foi se construindo ser pensante por ter um sólido “senso de raiz”, penso. Lendo o “diário”, ou o seu memorial, a bem humorada prosa, há instantes pontuais -tombos que ferem seu joelho, a primeira escola, onde primeiro se destacou como aluno, os primeiros arroubos sexuais, comentários sobre parentes próximos, e também os distantes. Mas, principalmente eu li um homem capaz de percorrer e criar um caminho deveras solitário, e, ao mesmo tempo, povoado de observações e reflexões acuradas sobre o que viu e refletiu.


Notei uma capacidade para a intimidade: consigo mesmo, com o visto e sentido por ele. Ainda maior a sua coragem para a verdade - do seu próprio sexo, para detectar os valores do pai, a dureza da vida em família, psicológica e social. Seu senso estético, traduzido em letras posteriormente, surgiu quando pirralho, na contemplação da natureza, nas histórias criadas a partir dos cartazes dos filmes que não via, mas que engambelava os amigos com enredos inventados.


Disse a terceira mulher, Pillar, em uma de suas muitas entrevistas, que Saramago não mudou depois do Nobel. Acredito. Sabemos que nossos sonhos mais caros e raros acontecem e se sedimentam em idade precoce. Ter conseguido a glória e o aplauso em idade madura não teriam poder de abalar os seus alicerces. Pillar, leitora de seus livros e admiradora do escritor antes do homem, se tornou a companheira que, segundo suas palavras, o fez viver o que não mais esperava, aos 63 anos, ela tendo quase 30 anos menos que ele.


As memórias não são “pequenas”, nem são somente do “pequeno” Saramago. São memórias escolhidas: dão a medida da sua Liberdade interior (e exterior) conquistada, palmo a palmo.


Instantes podem ser luminosos, quando o corpo e a alma estão firmemente enlaçados, como tochas a iluminar os sombrios espaços vividos, de tal sorte que nos tornamos alguém significativo, que trilhou um caminho tortuoso, mas pessoal.


Saramago mostra sua capacidade de se reconhecer, enquanto homem e enquanto escritor, nos fragmentos de instantes (não importa se criados ou vividos). Nos espaços em que se desenvolveu, nas ruas das casas em que morou (muitas!), quando é capaz de criar liames de entendimento entre as ilhas de acontecimentos das quais foi protagonista. Assim se marca indelevelmente a presença no mundo no Tempo, no Espaço, e no Imaginário mundo onde se é figura principal, diretor, figurante, cenário e roteirista.


Para quem gosta de seu estilo, o pequeno livro ajuda a reconhecer a saúde das raízes da árvore, sábia e sólida, da qual conhecemos os galhos, as folhas e os frutos, toda uma vasta obra aplaudida, com alguns livros que são patrimônio, agora, da nossa humanidade.

 

Maria Luiza Salomão
Psicanalista e Psicóloga

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