Intermitências e permanências

Por: José Antonio Pereira

‘Nossa maior tragédia é não saber o que fazer com a vida’.


Palestra de abertura do curso Literatura e poder. Luzes e sombras, Universidade Carlos III, Madri, início do ano de 2004. Afirmação de José de Souza Saramago, Nobel de Literatura de 1998.


Afora as muitas polêmicas que sempre envolveram sua jornada neste mundo de cegueiras brancas, de que nos fala, Saramago soube muito bem o que fazer com a vida, pelo menos, no que concerne à literatura.


Nesse mesmo ano de 2004, publica mais um de seus muitos romances: Ensaio Sobre a Lucidez, em que faz severa crítica às instituições do poder político, e ao indisfarçável autoritarismo que tentam encobrir, sob vários rótulos.


No ano seguinte, entrega ao leitor outro romance, verdadeira pérola: As Intermitências da Morte. Nele discorre, não só sobre a vida e a morte, e seus desdobramentos na sociedade moderna, de forma irônica e mordaz, mas também, e principalmente, sobre o homem, a mulher e a música; sobre o amor e sua força vital: “Por um instante a morte soltou-se a si mesma, expandindo-se até às paredes, encheu o quarto todo e alongou-se como um fluido até à sala contígua, aí uma parte de si deteve-se a olhar o caderno que estava aberto sobre uma cadeira, era a suíte número seis opus mil e doze em ré maior de johann sebastian bach composta em cöthen e não precisou de ter aprendido música para saber que ela havia sido escrita, como a nona sinfonia de beethoven, na tonalidade da alegria, da unidade entre os homens, da amizade e do amor. Então aconteceu algo nunca visto, algo não imaginável, a morte deixou-se cair de joelhos, era toda ela, agora, um corpo refeito, e por isso é que tinha joelhos, e pernas, e pés, e braços, e mãos, e uma cara que entre as mãos escondia, e uns ombros que tremiam não se sabe porquê (...). No dia seguinte ninguém morreu.’


E não parou por aí. José Saramago lançou ainda As Pequenas Memórias, em 2006, A Viagem do Elefante, em 2008, e Caim, no fim do ano passado. No início deste ano, reeditou o livro A Jangada de Pedra (de 1986), que teve toda a sua renda revertida para as vítimas do terremoto no Haiti.


(Citando apenas obras publicadas depois da afirmação feita na Universidade Carlos III, em Madri).


Seus livros foram traduzidos para mais de vinte idiomas e, em 2008, Ensaio sobre a cegueira foi transformado em filme, pelas mãos hábeis do cineasta brasileiro Fernando Meirelles.


Se Saramago viveu à procura do “que fazer com a vida”, fez dessa procura sua vida, a exemplo de Drummond, com a palavra [mágica]: “Vou procurá-la a vida inteira / no mundo todo. / Se tarda o encontro, se não a encontro, / não desanimo, / procuro sempre. // Procuro sempre, e minha procura / ficará sendo / minha palavra.”


Como já tive a oportunidade de dizer, aqui, neste Jornal, a morte de Saramago cumpre a sina da matéria: mais um corpo se vai. Os corpos sempre se vão, depois de percorrerem os caminhos do mundo. Fica a obra: no homem, a medida do eterno. Com isso ele concorda: “Mesmo que a rota da minha vida me conduza a uma estrela, nem por isso fui dispensado de percorrer os caminhos do mundo”.


Mesmo que a rota de sua vida o tenha conduzido a uma estrela, José Saramago nunca se irá de nós, de nossos olhos e corações ávidos do lume da Literatura. Soube fazer da vida eternidade, a partir do espírito poeta, que teceu também a sua prosa; do amor à língua; do respeito à palavra; da exigência estética; do Nobel conquistado para a Literatura Portuguesa; da grandiosa obra literária - imortal - que nos deixa.

 

Eny Miranda
Médica, poeta e cronista

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