A opinião pública faz a estatística?

Por: José Antonio Pereira

(ou a estatística muda a opinião pública?)

 

Em vésperas de eleição, não há como escapar delas. E o interessante é notar como a opinião pública, em vez de configurar e manter-se neutra às estatísticas, é levada por elas. Vejamos casos recentes e de todos conhecidos.


Dilma sempre se manteve, neste ano, em segundo lugar nas estatísticas, sejam elas oriundas desta ou daquela instituição. Serra em primeiro e a donzelíssima Marina Silva em último. Inclusive, se houvesse um segundo turno há uns dois meses, pelas estatísticas Serra obteria a vitória sobre qualquer candidato, em que pese a recusa teimosa de Aécio Neves quanto a ser seu vice. É Minas novamente voltando à sua importância política nacional numa disputa eleitoral. Mas isto até há uns dois meses.


Interessante também notar o que blogs espalhafatosos e e-mails tendenciosos andam buscando “fazer a cabeça” de seus leitores. Quem, por acaso, chegou a ler a biografia de Dilma Rousseff, encontrou fichas criminais altamente incriminadoras, assim como atos de terrorismo próprios de um caudilhista sulamericano. Mas enquanto isso ocorria nas telas de centenas de milhares de computadores, o pré-sal ganhava espaço na mídia impressa e falada, Lula ensaiava alguns passos tortuosos no âmbito das relações exteriores, alguns países o elogiavam pela busca da intervenção diplomática; dias mais tarde a ONU aprovava sanções ao Irã e o nosso petróleo proporcionaria, em tese, royalties aos municípios brasileiros longe das bacias petrolíferas. E Lula mais popular; e o povo novamente confundindo as coisas, como a pensar que a alma de Lula fosse a própria alma de Dilma. E que Dilma seria, com certeza, o continuísmo dos acertos econômicos por que o Brasil passa raspando. Marina diz em suaves brados: “A alma de Dilma não é a alma de Lula!” Está certa: foi ao ponto! Mas essa ainda não é a linguagem do eleitor brasileiro.


Afinal, qual é a linguagem do eleitor brasileiro?


É exatamente aquela falada por Lula, agregada pelo verde-amarelismo de uma Copa do Mundo. Se o leitor estiver me acompanhando com atenção, digo, sustento e aposto que Dilma sobe vertiginosamente nas pesquisas se a seleção brasileira sagrar-se campeã na África do Sul.


O rodoanel que contorna São Paulo e toda a elogiável administração Serra não seriam capazes de fazer frente ao que significam o pré-sal, o atual equilíbrio econômico e a vitória da seleção canarinha frente a uma disputa eleitoral. Entenderam? Esta é a linguagem ou o pensamento raso do eleitor brasileiro.


Os antidilmistas começam a ficar divididos. Serra já não é mais a opção tão favorável assim, pois se uma vez na história representou ele o continuísmo, hoje é exatamente o contrário: pode significar a ruptura de um país que parece estar dando certo. E o continuísmo seria a premissa de navegação segura no concerto mundial das nações em pleno desenvolvimento. E o que acontece com as estatísticas em face dessas análises? Dilma sobe feito rojão de junho, exatamente nesse mês, e empata com Serra, com grande chance de ultrapassá-lo a depender dos resultados da Copa e principalmente dos próximos passos de Lula quanto às relações exteriores e, principalmente, às inaugurações de pedaços de obras, aqui e ali, previstas no PAC.


A velha pergunta volta à tona: a opinião pública faz a estatística ou a estatística muda a opinião pública?


Lembro uma provável história para ilustrar esta situação.


Imaginemos que tivesse havido um inquérito em Roma, no ano 60 d.C.. Levando-se em consideração a crença em deuses ainda forte entre os romanos, procedimento herdado da cultura da Grécia antiga, possivelmente os resultados seriam os seguintes:

- Júpiter ....................... 63%
- Marte ......................... 21%
- Jesus Cristo .............  2%
- Sem opinião ........... 14%
 
Ora, se São Paulo fosse homem de se deixar impressionar pelas estatísticas, em vez de ser um líder, teria feito as malas e voltado para a Palestina, principalmente depois de ouvir o que dizia a opinião pública da época: “Vamos enforcar esse carequinha judeu!”

Felizmente para os cristãos, porém, Paulo não acreditava nesses inquéritos de opinião pública. Sua tarefa era dissuadir. Foi tratando de pôr em prática os seus planos, com o que levou de vencida o Império Romano, Júpiter, Marte e até mesmo a grande Deusa das Vestais.

Os candidatos à presidência da República brasileira nunca precisaram tanto de São Paulo como agora! Do santo apóstolo, é claro!
 
 
Everton de Paula
Acadêmico
e editor.  Escreve para o Comércio há 42 anos

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