A dança da bola

Por: José Antonio Pereira

O apito ordena que o jogo comece e todo alarido que paira para.


A pequena circunferência branca risca o fundo verde da tela e começa o bailado sempre inédito que ao longo dos próximos 90 minutos, com pequeno intervalo, mudará o andamento, o ritmo, o compasso, a figura. Semibreves, seminimas, mínimas e colcheias, executadas por virtuoses que podem no momento seguinte sair do tom e se perder na melodia, por um descuido qualquer. Milhares de olhos seguem a dança da pequena esfera que realiza desenhos improváveis numa quase fusão da música com as arte s plásticas. No lado esquerdo do peito, as batidas vitais acompanham o movimento daquele pequeno ponto branco que só não entra sozinho no campo adversário, e cruza a linha do gol arrebentando a rede e tudo,tamanho é o empenho e paixão daqueles corações torcedores, por pura opinião e caráter ( da bola). Ou talvez pelo total desconhecimento e domínio da metafísica por parte dos que assistem e torcem e sofrem e...


Não há dor que aquele circulozinho branco na tela não cure, se estiver no lugar certo ( dentro da linha do gol adversário) e no tempo certo (durante os 90 minutos válidos do jogo). Cura dor de dente, dor de ouvido, amor recolhido, traição de amigo. Cura o corpo e cura a alma, transforma mais de três mil anos de filosofia em pura demagogia, inimigos jurados em “brother sangue-bão”, e norte e sul num mesmo rincão. Mas todo sonho tem seu final e aqui não há exceção.


Coda. Fim da música fim do jogo. A unidade se desfaz com o apito final, que ordena a volta do ordinário, do cotidiano, do individual, da vida real.


Meu país é feito de muitas coisas, mas essencialmente de homens , sonhos e bola.

 

Silvana Bombicino  Damian
É empresária e escritora

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