As Pequenas Memórias

Por: José Antonio Pereira

Depois de vinte anos com uma semente em estado de latência, Saramago deixou-a germinar e nascer, mostrando para seus leitores em relato autobiográfico a raiz central de sua origem. Muito além de refazer uma árvore genealógica, ele narra a existência do menino Zezinho e de como foi acontecendo a formação do sujeito José Saramago.


Um sujeito, no âmbito psicanalítico,  vai se constituindo ao longo da vida através de identificações com as figuras paterna, materna, familiares, de seu círculo relacional, social, enfim. José Saramago relata que queria que os leitores soubessem de onde saiu este homem, este sujeito. Começa por explicar o sobrenome: deveria ser José de Sousa, como seu pai, mas devido a um erro no cartório de registros, cometido por um funcionário alcoolizado, ficou sendo José Saramago.


O escritor narra suas Pequenas Memórias, que são grandes memórias afinal. De vãos de sua mente emergem a aldeia Azinhaga e os rios Almonda e Tejo. O nascimento na casa tosca. Na infância, o medo de monstros que povoavam suas noites e lhe traziam pesadelos. No cerne de sua memória, a figura de seu querido avô materno, Jerônimo; homem sábio, analfabeto, mas capaz de profundas leituras da vida, do cosmos. Quando o menino completou dois anos, mudou-se com sua família para Lisboa, mas nunca se esqueceu do chão de barro onde nasceu e pisou. A família levava vida difícil, com muitas privações, mudando de casa em casa, em períodos curtos.

Através do poder reconstrutor da memória, sem cronologia,o autor vai narrando sua saga, seus casos hilários ou tristes. Como a morte de seu irmão Francisco aos quatro anos de idade, que lhe trouxe muita dor.Lembra da mãe com carinho; do pai as memórias não são tão agradáveis, deixando visível que seu referencial paterno e de constituição de identidade veio de seu avô Jerônimo.


Das profundezas de sua memória emerge um tempo de molecagem, de inocência, de namoricos e do brotar juvenil. Evidencia as escolas onde estudou, aprendeu a ler, viajando na leitura e na escrita. Relembra de forma simples, sem lamúria, quando dormia em enxerga e as baratas perambulavam por seu corpo. Ressente-se por não ter uma foto de quando era bebê. Descasca realidades nuas e cruas, resgatando o fato de que aos dois/três anos, foi humilhado, torturado fisicamente, por meninos mais velhos, o que lhe infligiu dor física e feridas emocionais.


Transita pelo tempo, lembrando de parentes, amigos e conhecidos, seus acertos, seus erros, sempre retornando ao seu avô que ao sentir que ia morrer abraçou todas as árvores do seu quintal, pensou nas frutas que não iria comer. Para ele, este avô foi um grande escritor analfabeto, um cientista, um filósofo.


A escrita de José Saramago navega e transmuda, da prosa para a poesia. Nas ruas de sua vida, nas ruas de sua memória, na pequena Azinhaga, que não existe mais geograficamente, formou-se, constituiu-se o sujeito José Saramago. Há em seu livro o desnudamento da criança interior em diversas vertentes, o que, segundo ele, foi muitas vezes difícil relatar.


As Pequenas Memórias convidam o leitor a caminhar por este imenso manancial de vivências, a mergulhar neste labirinto de emoções e em suas ruas diversas.


Ler este livro, formar um par literário, humano, leva-nos a viajar nas memórias do escritor, e em nossas próprias lembranças, fato que pode trazer várias emoções, vários sentimentos, ressignificados ou não...
 

Lucia Helema Goulart Gilberto Pizzo
Psicóloga Clínica


 
Serviço:
 
Nome do Livro: “As Pequenas Memórias”
Autor: José Saramago
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 142
Onde Comprar: Americanas.com e Para Ler
Preço: 30,00

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