Rios de águas vivas

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De vez em quando releio o discurso pronunciado por William Faukner ao receber o Nobel de Literatura de 1949. É linda peça literária, profissão de fé na ficção, sucinta e potente definição do que é literatura. Autor do clássico O Som e a Fúria, Faukner diz em certo momento: “O verdadeiro escritor deve ensinar a si mesmo que a mais abjeta de todas as coisas é ter medo; e ensinando isso a si mesmo, esquecê-lo para sempre, não deixando lugar em sua oficina senão para as antigas verdades do coração: o amor, a honra, a piedade, o orgulho, a compaixão e o sacrifício.”


Elencadas por Faukner estas verdades representam os pilares de todo texto que, sendo relato ou narrativa, traduz condições e sentimentos próprios de nossa humanidade. Ao ler os livros de Luiz Cruz de Oliveira, ao repensar sua vasta obra que soma contos, crônicas e romances, ao resgatar os 40 anos de produção ininterrupta, todos nós, leitores, percebemos de maneira cristalina estas características acumuladas em feixes de luz, fixadas em personagens e cenas, lapidadas pelo estilo claro mas compacto, porque as palavras são escolhidas não só pelo seu sentido fático mas também pelo seu valor metafórico. Enxuto mas denso, Cruz fez de seu estilo a sua imagem e de sua imagem o seu estilo. A isso costumamos chamar coerência interna.


Acho extraordinário, e perfilador do grande artista que veio se construindo, o fato de que Cruz é um escritor que sempre surpreende em cada livro ao retomar seus temas e seus valores. Surpreende porque nunca se permite plagiar-se. Sua escrita é exercício que traz ao plano da visibilidade os movimentos internos do ser em expansão, aprendizado, experiência, sabedoria. São coisas que não se improvisam. Pedem tempo, empenho, vitalidade, principalmente desejo de superação.


Vislumbro com grande admiração a fecundidade da fonte de onde jorra a criação de Luiz Cruz. Seu último personagem, o Franco, que nos domingos tem habitado uma das páginas do Nossas Letras, este caderno literário do Comércio da Franca, é mais um exemplo da fertilidade das áreas onde brotam gentes e coisas e situações e enredos sempre novos, mas ligados a um universo antigo, perene, ancestral, núcleo duro no qual estão os sentimentos em seu estado puro, acessáveis por coisas às vezes mínimas, às vezes máximas, nunca se sabe ao certo, pois este é o sagrado território do ficcionista, só por ele visitado antes que o codifique em palavras para seus leitores.


E seu último livro, Cantos e desencantos, hoje lançado, que li de uma só vez, fascinada pela prosa poética que refina percepções e resgata memórias, é um manancial de sentimentos que borbulham, pedindo tradução em palavras imagéticas, alegóricas, simbólicas. É no nível dos símbolos que percebo duas presenças importantes (e recorrentes na obra) para o entendimento da cosmovisão do autor: uma é a Água, a outra é a Mulher. A água aparece quase sempre sob forma líquida e corrente; a mulher, inominada, permite supor uma tradução do feminino. Num caso e noutro, o autor está a tratar de Vida, esta que jamais se fixa numa forma rígida e nos desafia a cada instante, porque nos pede disposição de aceitá-la nos seus mistérios que são muitos.


Rios de águas vivas, assim vejo os espaços criadores de Cruz, lidando valentemente com as velhas verdades universais, sem as quais as histórias se tornam efêmeras. As dele já se fazem perenes.
 

Sônia Machiavelli
Autora de Uma Bolsa Grená, Estações, Jantar na Acemira e O Poço

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