Limões ácidos na Palestina

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

104809

Lemon Tree, o filme: parábola que nos induz a pensar nos conflitos palestinos ou uma metáfora para as relações humanas que ainda não conseguiram evoluir e ultrapassar o patamar do meramente racional? Quando termina, a dúvida se estabelece definitivamente: localização geográfica à parte, a humanidade ainda pode se entender ou nossas relações com o semelhante entraram em absoluta e vertiginosa queda, sem recuperação? Estão aí os limões do filme, em imagem nada sutil para nos levar a pensar no assunto.


O filme possui várias camadas paralelas para serem observadas em conjunto e revistas isoladamente. Na história, a viúva Salma Zidane (Hiam Abbass) cuida de sua plantação de limões iniciada pelo pai cinquenta anos antes, localizada exatamente na fronteira da Cisjordânia com o Estado de Israel. Os filhos moram longe, preocupados em subsistir. Vive e trabalha unicamente assessorada por Abu Hussam (Tarik Kopty), ajudante fiel do tempo do pai. Um dia, mudam-se para a bela casa, no lado israelense, o Ministro da Defesa, Israel Navon (Doron Tavory) e sua mulher Mira (Rona Lipaz-Michael). O serviço secreto israelense decide que, por questões de segurança, é preciso pôr abaixo os limoeiros. Salma decide não se submeter e resiste, iniciando uma luta aparentemente desigual. De início pede ajuda a todos conhecidos, inclusive aos filhos, mas apenas no advogado Ziad Daud (Ali Suliman) irá encontrar aliado, companheiro e sustentação para a luta judicial contra a decisão do Estado de Israel.


A partir dessa intrincada e polêmica configuração surgirão narrativas, personagens e aspectos, mais e mais fascinantes: as aludidas camadas paralelas. Uma delas, o tema solidão. Solidão de Salma, de Mira, de Ziad e do próprio Israel. Lá um dia, mesmo sem trocar uma palavra -pela dificuldade de aproximação física e por virem de culturas distintas - Salma (a pobre e solitária) e Mira (a israelense culta, educada e rica) conseguem se aproximar, se entender e mostrar simpatia uma para com a outra: um breve momento no filme, mas de beleza indizível. A de Ziad, promissor advogado, apaixonado pela causa e pela guerreira Salma com quem tem um breve romance abortado pelas circunstâncias: às viúvas, na cultura árabe, é negada a chance de uma nova tentativa afetiva; ademais ele sonha com ascensão social e só a conseguirá através de casamento conveniente. E há a do poderoso Israel, coincidência de nomes bastante engenhosa - mostrado, no final do filme, como um gigante abandonado e triste, sozinho.


O filme apresenta mais. Mostra a truculência do confronto entre um Estado rico, poderoso, bem equipado e armado contra um povo que não tem liderança nítida e está dividido por facções. Mostra a convivência da mulher islâmica com seus símbolos, como o véu; sua vaidade (uma das mais bonitas cenas é quando Salma procura jóias guardadas desde a morte do marido e, por um momento, se enfeita com elas, se redescobrindo mulher). Mostra a importância da imprensa, do jornalismo, de jornais independentes dos governos: no filme a imprensa livre encosta o ministro na parede. Lemon Tree consegue ainda falar da relação entre pais e filhos semelhantes e conflitantes de um e de outro lado de quaisquer fronteiras.
 

Tem sequências e descobertas primorosas, como a indignação de Salma ao regar suas árvores e encontrar a plantação invadida pelos israelenses que buscam os poucos limões que perduraram para uma festa do ministro. Sua indignação é contagiante. Ou o espanto quando se percebe o emblema do Brasil num moletom verde-amarelo usado pelo advogado. Ou na foto do Zidane, mesmo sobrenome de Salma na parede. Ou na abertura, quando se reconhece uma versão moderna do “Meu limão, meu limoeiro” música gravada aqui por Inezita Barroso e por Simonal. Rico e belo em seus vários aspectos, o filme tem uma atualidade política e humanitária que atordoa: é história baseada em fato real, protagonizada por seres humanos, plausíveis e comuns. Vai passar o tempo e ainda assim mostrará com riqueza de detalhes o conflito político cuja solução sempre esteve ao mesmo tempo distante e tão fácil de ser alcançada e, essencialmente, um discurso sobre solidão e valores que acabam unindo (mais do que separando) as pessoas, entre eles, a busca pela Justiça e pela dignidade.

 
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária, assina coluna no Comércio às sextas-feiras
 
 
Serviço
Título: Lemon Tree
Gênero: Drama
Duração: 106 min.
Distribuidora: Imovision
Diretor: Eran Riklis
 
Eran Riklis

Eran Riklis nasceu em Israel, no ano de 1954. Após se graduar no Beaconsfield National Film School na Inglaterra, fez seu primeiro filme em 1984, On a clear Day you can see Damascus, roteiro político baseado em fatos reais. Sete anos depois dirigiu Cup Final, elogiado pela crítica e selecionado para diversos festivais de cinema entre eles os de Berlim e Veneza. Em1993, Zohar foi um grande sucesso em Israel. Vulcano Junction, de 1999 é seu tributo pessoal ao rock and roll. O filme The Syrian Bride foi sucesso no mundo todo. Mora em Tel Aviv e se considera não apenas israelita, mas diretor de cinema mundial. Ganhou 10 prêmios e 9 indicações.  

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras