O lavrador

Por: Hélio França

Acordou em meio aos resmungos de nuvens carregadas, com a noite cheirando a chuva e a madrugada com o hálito úmido. Janela aberta, o céu desprovido de estrelas. Apenas o ribombar distante prenunciando as águas que iriam saciar a sede do chão. Os clarões foram se acentuando com trovões ouvidos segundos após. Deitou-se novamente com um sorriso indecifrável nos lábios secos. Queria dormir. Queria despertar com o ruído característico de uma chuva boa e mansa tamborilando no telhado. Iria, ainda no lusco-fusco da preguiçosa e cinzenta manhã, ajeitar os paus de lenha no fogão, passar um cafezinho no coador de pano e bebericar saudando o fim da seca, a interminável seca...


 Como sempre tinha que amanhecer, amanheceu.


As duas vacas mal paravam em pé, tão comido estava o pasto. Fracas e esquálidas, o leite agora era escasso. Mas bastava ainda para as mamadeiras do casal de filhos, a menina com quatro e o caçula com dois anos. A terra estava preparada há mais de mês esperando o plantio. Arroz e milho, feijão das águas não, que só traz prejuízo. A esposa, companheira de muitas roças, olhou-o com o que restava de esperança nos olhos, entregando-lhe o chapéu um tanto sujo e ressecado pelo sol de todos os dias. Trocaram algumas palavras falando baixo para não acordar as crianças, mas principalmente para ouvir o que ansiavam, os pingos d’água estalando nas folhas da mangueira ao lado da casa. Sairam até a porta, o dia amanhecido sem sol, cinzento, menos mal. Mas chuva que é bom, nada. Olhou mais uma vez para a mulher. Passou a mão calejada no rosto dela, a outra mão envolveu firme o cabo de guatambú da velha e boa enxada. Embornal cheio de milho para o plantio pendurado num dos ombros, a matula com o almoço no outro, lá se foi pelo trilho até dobrar o horizonte do morrote.


 Voltaria de tardinha após o plantio feito, cova por cova. Depois era esperar que as águas viessem umedecer a terra, ver o milharal crescer, fazer pamonha, curau, fubá, e alimentar a galinhada e alguns leitões. À tarde, o suor no rosto contou-lhe que o dia havia passado. Retornou cansado porém com esperança de chuva naquela noite, ou quem sabe na próxima...
 Passados três dias, o chão árido e quente conspirava contra o brotar do milho e do arroz. Iria perder o plantio. Pensou nas crianças, nas galinhas, nos porcos, na pamonha...


 Quase uma semana, poeira p’ra todo lado, o pasto seco, a cisterna com três palmos d’água, minguando. O tempo fechava e abria, a chuva fazendo de conta.


 Outra madrugada. Acordou com a mulher cutucando suas costas. Ao lado da cama pegou o fósforo, acendeu a lamparina, olharam-se sem pronunciar qualquer palavra. Nos lábios secos dos dois foi surgindo um sorriso indecifrável, silencioso, tão silencioso que lhes permitia ouvir os estalinhos nas folhas da velha mangueira.


 Em alguns minutos aquilo foi se acentuando, os sorrisos foram se abrindo, ficando decifráveis. O olfato distinguiu o característico cheiro de chão molhado. Saíram lá fora, escuro ainda, abraçados, olhando para cima como se pudessem ver algo. Nada que os olhos pudessem distinguir, além do que as faces sentiam. Água! Dadivosa água, a matar a sede da terra, a lavar a alma e as lágrimas dos rostos molhados. Chuva no céu e nos olhos...

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