Buracão do Pestalozzi

Por: Everton de Paula

A Avenida Major Nicácio começava onde é hoje a Faculdade de Direito Municipal e terminava atrás da escola “Torquato Caleiro”, local em que há um semáforo trifásico. Ou era o contrário, tanto faz. O terreno adiante, do Educandário Pestalozzi, era um mataréu espesso, atravessado por um bambuzal altaneiro. Quem hoje desce a Major Nicácio em direção à Hélio Palermo nem imagina que aquilo era um matagal só, quase intransponível.


Duas ou três trilhas, mata adentro, formavam forte declive. Terreno propício para escorregar sobre folhas de bananeira ou caixas de papelão. Claro, brincadeira de meninos endiabrados em época de férias escolares ou mesmo após as aulas, para o desespero das mães que, depois, tinham de dar jeito no uniforme encardido.


A meninada chamava o lugar de buracão... O buracão do Pestalozzi.


O assanhaço da passarinhada fazia o menino aquietar-se, olhos abertos e atentos, bodoque na mão, alvo na mira e tchizzz lá ia a pedra chocar-se no galho mais alto do perfumoso eucalipto. Era, como sempre, o eterno e infalível anjo-da-guarda dos passarinhos, salvando mais uma vez a vidinha frágil de um empenachado, desviando a rota do pedregulho assassino. Ou a pontaria que não era boa!
 

O menino trazia sob o braço um papelão de caixa de embrulho. Ajeitava-o sobre a trilha em declive, dava um impulso e escorregava pelo buracão até às profundezas insondáveis. Essa tal de “profundeza insondável” é retórica, porque a descida terminava mesmo no corregozinho da Maria Ditinha.


Lá embaixo, no silêncio da mata, admirava alguns raios do dia atravessando o verde e espesso matagal. Deliciava-se com o momento. Sentia-se protegido, no colo da natureza. Punha os pés descalços na água fresca e se imaginava o mocinho das telas das matinês de domingo.


O menino cheirava a terra, esfarelando-a nas mãos, deixando-a escapar por entre os dedos. Ouvia o deslizar da água pouca e mansa desviando-se das pedras do leito lodoso. Fechava os olhos e tentava guiar-se pelo tato, afastando moitas de folha-navalha e troncos de árvores altíssimas. Cheirava a terra. Por alguns momentos aquele pequeno e mágico recanto penetrava-lhe na alma pelos sentidos. Soltava um grito, ouvia um débil eco. Vindo do longe, trazido por suave brisa, o tilintar de um sininho, talvez dependurado no pescoço de um animal doméstico. Abria mais os olhos para melhor entender o verde úmido. Os mesmos olhos do adulto que hoje sou, que ainda se abrem para melhor entender o porquê da fantasia desfeita.

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