O Segredo dos Seus Olhos

Por: Sônia Machiavelli

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O filme O Segredo dos Seus Olhos, ganhador do Oscar 2010 de melhor produção estrangeira, tornou-se o mais visto dos últimos 35 anos na Argentina, seu país de origem. Explica-se: além das qualidades intrínsecas da obra, as referências plurais e intensas à gente e ao espaço portenhos tanto convidam ao espelhamento latino como contribuem ao entendimento de um período da vida argentina ainda não totalmente superado por seu povo. O ano de 1974, que marca o início da história, tornou-se sinalizador do agravamento da re-pressão política no país vizinho. Com a despreparada Isabel Péron no governo, o grupo conhecido como Triple A (Aliança Anticomunista Argentina) intensificou suas ações repressivas, recrutando gente da pior espécie entre civis e militares. Uma dessas pessoas é um estrupador assassino buscado incessantemente pelo protagonista.


O filme justapõe imagens do passado e do presente, num movimento de idas e vindas, voltas e reviravoltas que mostram em dois planos o que sucedeu no âmbito do crime (e por isso alguns o assistem como saga policial) e o que aconteceu à vida pessoal do agente encarregado de desvendá-lo (o que permite traçar retratos psicológicos).


No balanço final, e o desfecho é impactante, mais que filme político e policial, que de fato também é, O Segredo dos Seus Olhos deve ser analisado como uma história sobre a possibilidade de amar e ser amado, desde que haja coragem para assumir riscos. Apesar do peso da intriga e de algumas imagens perturbadoras, a mensagem é de esperança.


Parafraseando o filme, um ex-funcionário público, Benjamin Espósito, ao se aposentar resolve escrever um livro contando o caso criminal que mais marcou sua carreira no Tribunal Penal de Buenos Aires, vinte e cinco anos atrás: o estupro seguido de morte de uma jovem professora. Mas o que poderia representar oportunidade de ordenamento de idéias, torna-se exercício doloroso porque revela ao autor capítulos de sua vida pessoal que ele não encerrou. Espósito projeta-se nos fatos que resgata para escrever; eles estão no passado mas permanecem presentes. Neste passado/presente encontra-se sua colega Irene Menendez Hastings.


 No papel de Espósito, o premiado Ricardo Darín está impecável, adjetivo que também pode qualificar a atuação de Soledad Villamil como Irene. Um nome importante no conjunto da obra é o do ator Guillermo Francella, conhecido comediante argentino que alcança desempenho extraordinário num papel dramático, o do também policial Pablo Sandoval. Sob a batuta do diretor Juan José Campanella, os três povoam com outros uma história que é contada em flashbacks mas deságua a todo momento no presente.


É esse movimento que confere ritmo ao filme e de onde emerge o drama principal, que é o do protagonista em sua dificuldade de tomar uma atitude em relação à sua vida amorosa. Outro tema que deriva deste, e o sustenta enquanto elemento da estrutura do filme, é a questão do livro como reordenador de uma história fragmentada, que a memória já não recupera mais com precisão, e que pede uma costura e um capítulo final. Podemos transformar a nossa vida em uma obra de arte? Escrever pode significar mudar a ordem de alguns capítulos da existência? Colocar um ponto final no texto deve representar uma abertura para outros capítulos na vida real? São considerações que o diretor deixa flutuantes, como um convite ao espectador mais sensível para que reflita sobre elas ao olhar o filme, de bela fotografia.


E o olhar, que está no título, se refere exatamente a quem? Pode ser o olhar intenso do estuprador, que Espósito capta ao analisar álbum de fotos da vítima. Pode ser o olhar petrificado da própria vítima, pois uma da primeiras cenas mostram em close a mão que fecha piedosamente os olhos ao cadáver. Pode ser o olhar apaixonado de Espósito sobre Irene, em outra foto que os exibe muito jovens. O olhar, percebe-se em todo o filme, é elemento metafórico, lugar de revelação, questionamentos e descobertas.


 São muitos os segredos que se vão desvelando enquanto se resgata o passado. São muitas as perguntas que o protagonista se faz e que o espectador também vai se propondo enquanto a história corre. Pergunta, aliás, é palavra que consta do título do romance de Eduardo Sacheri (também roteirista) que inspirou Campanella. Mas O Segredo dos Seus Olhos supera, e muito, A Pergunta de Seus Olhos. Para perguntas existem respostas. Para segredos, nem sempre.
 
Serviço
Título: O Segredo dos Seus Olhos
Produção: Argentina/Espanha
Ano: 2009
Gênero: Drama
Direção: Juan José Campanella
Roteirista: Eduardo Sacheri
Elenco: Ricardo Darín, Soledad Villamil, Guillermo Francella.

 

CINEASTA OSCARIZADO

Juan Jose Campanella

Juan Jose Campanella nasce em Buenos Aires em julho de 1959. Aos 20, já interessado por cinema, produz o curta Prioridade Nacional. Mas diante do cenário de fechamento político em que se encontra seu país, vai para os Estados Unidos, onde completa sua formação e começa a trabalhar em projetos televisivos. assinando como roteirista alguns episódios de Dr. House, Law and Order, New York.


Em 1999, com o propósito de filmar uma história que o habitava há anos, volta à Argentina. Faz O Mesmo Amor, a Mesma Chuva, com pequena repercussão. Mas seu nome irá se tornar muito conhecido no ano seguinte, com O Filho da Noiva,  de tema centrado na perda da memória. Com este título ganha a indicação ao Oscar. Se não leva o prêmio, garante grande visibilidade ao filme, reconhecido pela crítica pelo frescor narrativo. O ator escolhido como protagonista, Ricardo Darín, será a partir daí personagem em outros trabalhos, reforçando uma rica parceria. Antes de O Segredo dos Seus Olhos, que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010, além de outros prêmios expressivos, como o Goya espanhol, Campanella assinou o roteiro e a direção de Clube da Lua, bem recebido pela crítica mas de pouco apelo junto ao público.


Falando sobre o filme resenhado ao lado, o diretor argentino disse em entrevista por ocasião da entrega do Oscar, em março último, que O Segredo dos Seus Olhos “vive na tênue linha que separa o que os personagens dizem e o que o olhar deles delata.” Também afirmou que “mais que virar a página do passado, o filme evoca a importância de fechar as histórias que já se encerraram por si mesmas”.

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