Escolha

Por: Claudia Filipin

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Há algum tempo Beatriz exercitava um tipo de solidão discreta, quase indolor. Era um sentimento seco e sem cor, disfarçado no dia sob as cores de vários afazeres e uma rotina muito cheia de nada. Mesmo assim, muito cheia.


De domingo até quarta-feira, a vida acontecia-lhe sem um mínimo desvio: tudo planejado, horários cronometrados, tarefas esquematizadas, roteiros impecáveis, e, por volta das 20 horas, um encontro com a amiga solidão era tudo que lhe restava de um dia-a-dia estafante, quase implacável.


De quinta a sábado, a vida seguia mais amena: ia para casa do namorado, ou ele para a dela, e eles festejavam um pouco de vida que lhes sobrara, ambos divorciados e com filhos pelo mundo, ambos sozinhos e um pouco abandonados. É certo que tentaram viver juntos, mas o projeto naufragou, e depois de muito bater cabeças, decidiram que o melhor mesmo era manter a individualidade. Ou, para serem mais honestos, era melhor para ambos que continuassem seus “casos” com as respectivas “solidões”.


Bia podia garantir que o namorado só rivalizava com a Solidão dela, agora que o viço da juventude estava se esvaindo e seus pretendentes já não eram tão fartos. E ela, no fundo, também sentia-se rival apenas da solidão dele, homem que mais moço deixava testosterona no rastro, conquistador incurável e sedutor desmedido. Hoje, era diferente, haviam chegado no “tempo da delicadeza”.


Agora ambos estavam ali, ele e ela, com seus padrões de vida estabelecidos e tudo estaria muito bem, não fosse o fato de que Bia gostasse cada vez mais de ficar sozinha. A rotina de domingo a quarta era dura sim, imutável, mas tão confortável! Chegar em casa e tirar os sapatos, colocar no canal que lhe aprouvesse, tomar ou deixar de tomar banho se assim lhe desse na telha, comer quando tivesse fome, dormir com a cama só pra ela... Ahh, que maravilha! Abrir um vinho sozinha, ouvir Chico apenas com a companhia dos pensamentos, namorar-se a si mesma com a calma de uma anciã! Fora a amizade com a “sensação maravilhosa de estar só” que cada dia mais se cristalizava dentro de Beatriz.
 

Bia estava adorando isso! Cada vez mais! Ficar sozinha, no fundo, era talvez o verdadeiro projeto de vida dela. E quando os filhos vinham de longe visitá-la (e é fato que a saudade apertava sim!) ao final de três ou quatro dias com os garotos dentro de casa, lá estava ela outra vez querendo ficar somente em sua própria companhia.
 

Com o tempo, isso foi piorando. O parceiro, cada vez mais se sentindo abandonado (visto que Bia raramente dormia a seu lado ou passava um dia todo com ele) retomou sua vida de “tigrão” desdentado. Desaposentou-se da vida pacata e ensaiou um retorno (bem pouco triunfal) a uma vida um pouca mais ladina. Foi o que lhe restou diante da lacuna deixada pela parceira em sua vida. A conquista de outras mulheres acabou tornando-se um alento, no princípio.


Os filhos, percebendo o afastamento lento e doloroso de Bia, também começaram a afastar-se dela e as visitas de tornaram cada vez mais raras, incomuns.


Amigos, ela já não contava com mais nenhum, e nem aos vizinhos dava confiança: era como se não existissem. Os parentes, depois de algum tempo, deixaram de se preocupar pois Bia sequer atendia suas ligações telefônicas. Também não lhe faziam falta.


Foi um alívio quando chegou a aposentadoria. Um alívio para todos, inclusive para ela e para seus colegas de trabalho. Bia, no exercício de suas funções profissionais, raramente conversava, e isso acabou tornando-se um transtorno para seus pares. Isolou-se de tal maneira que ninguém tinha a coragem de lhe dirigir a palavra. Foi ficando no velho emprego do setor público, “encostada”, como se não houvesse muita saída. E, ao final de muito tempo, doloroso e pastoso tempo, aposentou-se e trancou-se definitivamente dentro de casa. Feliz. Feliz da vida!
 

O velho parceiro, alquebrado, amassado e desvalido (como ele mesmo se intitulava) levava-lhe a comida e dava um jeito de pagar as contas. Isso, depois que desistiu de chamar a atenção de Beatriz que saia com outras mulheres, pois foi em vão. Ela permitia suas visitas um pouco resignada, um pouco infeliz. Afinal, acostumara-se com o velho.
 

Quando ele chegava à casa de Beatriz, tinha a impressão de ouvi-la rindo, cantando, conversando... mas emudecia quando ele chamava seu nome. Sozinha?


Alimentou-a e velou seu juízo pelo tempo que foi necessário, em nome de um amor muito bonito que sofreram no passado.


E, depois de um certo tempo, o tempo necessário não foi muito: um dia Bia acordou e decidiu não ser incomodada por mais ninguém, nem por aqueles moços estranhos e espigados que se diziam seus filhos, nem por aquele velho que insistia tocar-lhe a pele e falar-lhe coisas sem sentido, nem por ruídos e cheiros que sempre desviavam sua atenção das conversas que mantinha com sua amiga de tantos anos.


Levantou-se cedo e decidiu que era hora de partir. Olhou para o lado e viu a velha companheira Solidão sorrindo para ela, um sorriso cândido, honesto, bom. Não sabia muito bem o que fazer para deixar o mundo, nunca havia de fato pensado nisso, mas súbito assustou-se por não ter decidido fazê-lo mais cedo...


Solicitou a ajuda da amiga, que lhe indicou o forno a gás. Solidão parecia muito segura do que fazia e esteve do seu lado o tempo todo. Não foi rápido, mas tampouco ela sofreu. Foi limpo, sem drama, sem estardalhaço.


O companheiro chegou à casa ao entardecer e não havia mais cheiro de gás. Como mantinha uma cópia da chave para momentos emergenciais, ele entrou sem arrombar a porta, depois de muito chamar e forçar as trancas.


Beatriz estava lá, a pele um pouco marcada pela acne meio azulada, a cabeça pendendo, o corpo inerte. Não ria, não falava, não olhava. Estava lá, com o rosto tranquilo, com aquele ar de anjo dos justos, com a satisfação de quem, há muito, anseia estar só.

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