Uma Câmara muito ardente

Por: José Antonio Pereira

A Câmara Municipal de Franca acaba de inaugurar a sua Casa. Dizem que ficou muito bonita. Esperamos que, dora em diante, o seu conteúdo acompanhe a beleza e a funcionalidade do novo edifício.


Mas, neste artigo, vamo-nos reportar a uma outra Câmara, àquela da década de 60. “Funcionava na praça Nossa Senhora da Conceição, no segundo andar de um prédio localizado ao lado da antiga livraria do Comércio. Suas sessões ficavam repletas. Repletas principalmente de estudantes dos cursos noturnos do Ginásio do Estado (Instituto Estadual de Educação Torquato Caleiro) e do Ateneu (Instituto Francano de Ensino). Suas reuniões chegavam a ser tão concorridas que até a longa escada que dava acesso ao pavimento superior ficava apinhada de estudantes que se contentavam em ouvir os vereadores, impossibilitados que estavam de vê-los.
 

Como se não bastassem os hilários e ardorosos debates, a Câmara oferecia (na medida do possível a todos os espectadores) um cafezinho de primeira qualidade feito pelo tio Ditão, funcionário da Edilidade que acabou assumindo um cargo de vereador (pois era primeiro suplente da UDN), em virtude da renúncia de Jorge Cheade.
 

 A chefia do Executivo estava nas mãos de Hélio Palermo que, nos dias de sessão, ficava perambulando pela praça com um radinho no ouvido e orientando os seus mais fervorosos líderes: os vereadores Antônio Marcos Kaluf e Fábio Celso de Jesus Liporoni. Na oposição pontificavam José Lancha Filho e Onofre de Paula Trajano. Dentre os demais vereadores, lembramo-nos de José Martiniano de Oliveira, Benedito Freitas Lino, Edson Ferreira Freitas, José Mercuri, Ivon Rodrigues Pereira, Flávio Rocha, etc. O presidente era Ademar Rodrigues Alves que foi posteriormente substituído por Geraldo Alves Taveira.
 

A estudantada vibrava com os debates acalorados e com os pronunciamentos às vezes sensatos, outras vezes descabidos. Muitos alunos chegavam a enforcar as aulas para se fazerem presentes desde o início das reuniões. Perguntavam uns aos outros :
 

- Hoje tem espetáculo?


E a resposta era:
 

- Tem sim senhor.


E todos iam assisti-lo com interesse e satisfação.
 

Até hoje, lembro-me claramente de alguns episódios desenrolados naquela Casa de Leis. Freitas Lino, professor e diretor da Faculdade de Direito, era um vereador muito nervoso; nervoso, mas educado. No auge de uma discussão, fustigado por um adversário de pouco escrúpulo, virou-se para ele com o dedo em riste e os nervos à flor da pele e, da maneira mais educada possível, proferiu:
 

-Vossa Excelência, Vossa Excelência é um canalha.
 

Ivon Rodrigues gostava de aprontar as suas. Numa daquelas reuniões bem concorridas, ele pediu permissão ao Presidente para jantar, visto que havia chegado de uma longa viagem. O Presidente, solícito, autorizou prontamente. Ivon puxou de sua gaveta uma marmitinha com arroz, feijão, chuchu e torresmo, pegou uma colher, abaixou a cabeça e mandou a gororoba.
 

Durante a mesma legislatura, Ivon e Edson Ferreira Freitas tiveram os seus mandatos cassados por terem praticado cenas de pugilato em uma das sessões.


Flávio Rocha, vereador de grande projeção, destacava-se por sua atuação no plenário da Câmara. Possuía uma cultura jurídica sólida, profunda e incontestável. Seus pronunciamentos eram demolidores e suas argumentações muito bem articuladas. Suas ausências eram sentidas e sua presença temida. Certa vez, tendo de faltar seguidamente a várias sessões, membros de sua bancada colocaram o seu retrato na mesa por ele ocupada e justificaram:


-Já que o Dr. Flávio não pode estar fisicamente presente, basta a sua fotografia para manter a ordem e o respeito nessa Casa.


Naquela muito ardente Câmara Municipal houve inclusive um dia do “vira-mesas”. Foi um “quebra-quebra” que chegou a assustar. Viraram as mesas, rolaram cadeiras, voaram cinzeiros, papéis, canetas. E tudo isto acompanhado pela gritaria e o som estridente da campanhia acionada pelo Presidente Ademar Rodrigues Alves. Teve até polícia na parada. Os protagonistas desse tumulto foram, se é que não me esqueci, os então jovens e destemidos vereadores José Lancha Filho e Onofre de Paula Trajano. Não sei bem o motivo principal do “quebra-quebra”. Eles, certamente, estavam revoltados com alguma armação do Hélio, do Hélio e de sua bancada situacionista. O fato é que o pau quebrou, a mesa virou, mas tudo se acalmou.


Com o advento do regime militar, a festa acabou. Não, a Câmara não foi dissolvida. Ela continuou fazendo as mesmas coisas de antes. Porém o público sumiu. É que a partir de março de 64, ficou muito perigoso rir, aplaudir ou vaiar.

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