Mina eterna

Por: José Antonio Pereira

Em passos muito lentos, Chico Franco desce a Rua Voluntários da Franca em direção ao centro. Passa pouco das sete horas, as calçadas estão quase desertas, porque as casas comerciais ainda estão fechadas. Agora existe a determinação de só abrirem após as nove horas.


Chico caninha, para, examina, recorda.
 

- Ali ficava a fábrica de sapatos dos Licursi, aqui era a Casa Cerqueira Pucci. Ali era a Farmácia São Sebastião, do Leonildo Foroni.
 

O homem atravessa a Rua Gonçalves Dias, para e fica, um tempão, olhando para algo que só ele enxerga: a serraria enorme, que depois virou Balau Madeiras. Volta-se e vê, do outro lado da rua, a funerária do Ivon Rodrigues Pereira.
 

Nesta hora a Rua da Estação fica cheia de gente: o governador Jânio Quadros está em Franca, veio batizar a filha do Ivon.
 

No quarteirão seguinte, Chico Franco interrompe a caminhada e, sem sair da calçada, adentra as dependências da Farmácia Santa Terezinha. Leva a mão ao chapéu, descobre-se respeitosamente.
 

- Bom-dia, Senhor Anésio.
 

- Bom-dia, Chico. E sua mãe, como está passando ?
 

- Sarou, senhor Anésio. O remédio que o senhor deu curou a mãe na hora. Foi como se o senhor tivesse tirado a doença com a mão. No dia dez venho pagar o senhor.
 

- Está bem, Chico. Vai com Deus.
 

- Obrigado, senhor Anésio. Fica com Deus também.
 

O devaneio é interrompido.
 

- Que é isso, Sô Chico? Falando sozinho?
 

O retorno à realidade é lento. Primeiramente o velho se volta para a voz alegre que espanta o passado. Depois são os olhos que ficam muito abertos, maneira de interrogar. Em seguida são os lábios que tremem ligeiramente, a boca demorando a articular. Finalmente acontece a reação oral.
 

- Hein ? Não... não. Estava aqui... lembrando coisas.
 

- Lembrança é o que não falta, hein Sô Chico.
 

- Mas, se mal lhe pergunto, qual é a graça da jovem?
 

- Não diga que esqueceu de mim. Sou a Mirair, nora do senhor Anésio Foroni.
 

- Virgem! É mesmo... é a menina Mirair. Mil perdões, menina. Acho que estou perdendo a vista... como posso não ter reconhecido a menina que me atendeu tantos anos aqui na farmácia ?
 

- Isso é normal, Sô Chico. Faz muito tempo que a gente não se cruza.
 

- É verdade. Como vai a menina?
 

- A menina já não é menina mais, mas a gente vai navegando... Como diz o poeta, é preciso navegar.
 

- É verdade. Eu estou aposentado, sabia?
 

- Sabia, Sô Chico. O senhor está indo pra onde?
 

- Estou indo pra cidade. Todo dia faço isso. Saio de casa, caminho até a Praça Barão, depois volto. Nunca vou de ônibus. Vou e volto a pé. Isso é bom para o coração.
 

- Então vamos descendo... estou indo ao supermercado. Tempo bom aquele da Farmácia Santa Terezinha, não era?
 

- Ah, se era... eu comprova, só precisava pagar quando recebia o pagamento... Todo mundo pagava a conta no começo do mês.
 

- Os fregueses da roça só pagavam a conta uma vez por ano, na colheita do café.
 

- Tempo bom. Agora a gente paga adiantado para depois receber o remédio...
 

- Bem, Sô Chico, eu fico aqui. Vou comprar algumas coisas.
 

- Aqui?
 

- É. Aqui agora é supermercado.
 

- Antes era o Depósito de Bebidas Blóis.
 

- Era. Era de propriedade do senhor Nélio Zanardi Pêra. Até outro dia, Sô Chico.
 

- Até, menina Mirair.
 

Ao se despedir, o velho leva a mão ao chapéu, descobre-se por inteiro, ameaça inclinar o corpo, mas a senhora já caminha depressa para o supermercado. Então ele continua a caminhada lenta. Atravessa a ponte, namora por minutos a água que jorra em espécie de pia, esquece depressa que ela está canalizada, canta baixinho
 

Eis as Três Colinas
Na retina sem fim
E a Água da Careta
Corre dentro de mim...

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