Jeitinho brasileiro

Por: Mauro Ferreira

No começo de minha carreira profissional, dei aulas de desenho num curso superior de artes e design. Um dos meus colegas era o professor de teatro Edélcio Mostaço, que depois tornou-se influente crítico da cena teatral paulistana, mas na época era apenas um menino que queria começar carreira na universidade, vinha todas as semanas de São Paulo enfrentando longas e cansativas horas de ônibus.


Lembro-me como se fosse hoje das discussões que tínhamos na sala dos professores sobre o dilema hamletiano vivido por Edélcio, quando começou a fazer oficinas de expressão corporal e de representação no palco, ou algo do gênero, me corrijam os aficionados e entendidos das artes cênicas, pois sou uma nulidade nisso. Sempre defendi a exemplar campanha dos humoristas do Casseta & Planeta: “vá ao teatro, mas não me chame”, principalmente se o diretor for algum áulico do prefeito.


O fato é que havia uma noviça religiosa entre suas alunas, e ela se recusava a colocar a colorida malha colante que cada um dos alunos deveria usar para que o conjunto tivesse a configuração artística desejada pelo professor. Com a autoridade moral que lhe conferia o cargo de responsável pela disciplina, Edélcio ameaçou a aluna renitente de reprovação. O bicho pegou porque a moça dependia de uma bolsa de estudos dada a alunos exemplares, a reprovação a faria perder tudo e ainda levar uma bronca da madre superiora. Edélcio estava inflexível. Mas Deus é grande e magnânimo e o jeitinho brasileiro apareceu. A moça apresentou um reluzente atestado médico que afirmava que ela tinha problemas cardíacos ou coisa parecida, estava terminantemente proibida de fazer exercícios físicos e livrou-se de Edélcio que, no ano seguinte, livrou-se de todos nós, inclusive da universidade. Pediu demissão e virou de vez crítico teatral.
 

Já o Cóssimo, que foi prefeito e atual vice-prefeito de Passos e leciona na mesma instituição de ensino que eu, passou por situação difícil também, verdadeira “saia-justa”, quando o jeitinho brasileiro atacou outra vez. No curso de letras, apareceu uma aluna bem idosa, uma senhora simpática e falante, mas pouco estudiosa. Ela estava mais preocupada em fazer contatos sociais, em participar das festas e atividades extracurriculares que no curso propriamente dito. Até que chegou o dia da prova. Cóssimo distribuiu as folhas da avaliação e logo percebeu que a aluna estava “colando”. Ficou pasmo com a esperteza da velhinha, que sem pestanejar estava puxando umas papeletas sob a carteira. Chamou-lhe discretamente a atenção, dizendo que lhe tomaria a prova se ela continuasse tentando burlar as regras do exame.
 

Ao que a velhinha, indignada, reagiu em alto e bom som, para toda a classe ouvir: “o senhor respeite os meus cabelos brancos, o senhor como político não tem autoridade moral para me tomar a prova”.

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