Amor e ódio

Por: Thereza Rici

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Quando ouço histórias de homens valentes, lembro-me de Martins da Veiga. Era um rapaz alto, musculoso, moreno, vastos cabelos pretos e compridos, lá pelo trinta e oito ou quarenta anos, com grande fama na cidade não só por ser considerado um homem valente, mas entre as mulheres pela sua beleza máscula. Gostava de estar nos fins de semana entre amigos nas rodadas de cerveja, onde dedilhava seu violão até altas horas. Não temia ninguém e nada.


 Vestia calças de bombachas, camisas escuras, com um lenço amarrado no pescoço, botas altas, assemelhando-se aos gaúchos, e trazia na cintura um revólver à mostra, para que as pessoas o vissem. De manhã, muito cedo, ouvíamos o ronco de sua camionete, quando saia para o trabalho.


 Atravessávamos uma época em que os fazendeiros produtores de café, contratavam os tratoristas que iam para a zonas rurais, arar as grandes extensões de terras, para o plantio não só de café, mas de tudo que viesse dar lucro aos donos das terras.


 Martins da Veiga possuía vários tratores e para isso empregava vários homens, para executar a tarefa que demandava tempo e com o período de plantio chegando, eles se esfalfavam para dar conta das terras prontas para receber as sementes. Com o trabalho árduo, ganhava bem e tinha uma vida faustosa.


 Mas apesar de ter muitas conquistas, era um homem solteiro e dizia que nunca enfrentaria um casamento, não tinha paciência para aturar uma mulher todos os dias.
 

 Acontece que um belo dia, em suas andanças pelos inferninhos da vida, encontrou Rosa, uma morena bonita, charmosa e contra tudo que dizia, ficou perdidamente apaixonado pela moça. Convidou-a para ir a sua casa e Rosa que havia fugido de sua vida miserável, esperando encontrar na prostituição uma vida melhor, encantou-se com o homem e com sua casa confortável. Não precisou muito tempo para que Rosa viesse definitivamente para o aconchego da vida de Martins.
 

 Quem visse o casal saindo para os passeios de fim de semana, acreditava que aquela felicidade iria durar para sempre. Martins colocou na casa uma doméstica para que Rosa tivesse todo o conforto e não precisasse se incomodar com afazeres domésticos.


 No inicio tudo foi flores, alegrias e felicidades. Mas a moça era uma mulher livre, saia para encontrar com as amigas e para as compras e assim que Martins percebeu sua escapadas, começou a estilar seu ciúme doentio. E a medida que o tempo foi passando, suas desconfianças e ciúme aumentando. Quando saia para o trabalho, deixava ordens expressas para Justina, a doméstica, não deixá-la sair. À tarde, na volta do trabalho, revirava as bolsas da moça, as gavetas dos móveis, a procura de alguma coisa que a denunciasse e quando Rosa não correspondia às suas exigências, acabava agredindo-a com socos e ponta -pés, deixando-a toda machucada e ainda ameaçava-a de morte com seu revólver em riste, caso soubesse de alguma traição sua. A moça retrucava seus mau tratos, com muito choro e juras de amor.


 No dia seguinte, arrependido, enchia a casa de flores, trazia-lhe jóias caras, roupas de grife, sapatos finos e levava-a para jantares em restaurantes famosos onde entre uma contradança e outra recheadas de declarações de amor, implorava seu perdão e prometia que nunca mais faria com ela as agressões do dia anterior, até como recompensa pelas lágrimas derramadas pela moça. Por muito tempo a vida de Rosa transcorreu dessa forma.


 A conselho de Justina que a tudo assistia e de vizinhas que de tudo sabiam, um dia Rosa tomou coragem, saiu de casa e foi para uma cidade longe dali, morar com parentes que ele desconhecia.


 Martins da Veiga, furioso, passou a procurá-la, como louco. Contratou investigadores particulares e logo conseguiu encontrá-la. E assim, Rosa voltou aos seus dias de amor e ódio. Via crucis que ainda durou por um longo tempo. Tentou em outras vezes fugir, mas o medo paralisava-a só em pensar na volta.
 

 Mas uma manhã, logo após uma noitada, Martins perdeu a hora e, atrasado para o trabalho, vestiu-se às pressas e saiu. Rosa verificou que ele havia esquecido o revólver em cima do guarda-roupas.


 À tarde, quando ele voltou, a mesa do jantar estava posta e enfeitada com flores, champanhe no gelo e um cardápio especial. Depois do jantar, quando Martins da Veiga, satisfeito com a surpresa da mulher,ia levantando-se da mesa, Rosa lhe disse: - - Espere, querido, ainda falta a sobremesa. E apontando-lhe o revólver disse-lhe: “Chegou a minha vez”. Descarregou a arma contra Martins. Em seguida, jogou o revólver em cima do corpo e partiu para sempre.

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