A primeira vez

Por: Silvana Bombicino Damian

Quando seus pés descalços afundaram lentamente, um após o outro, naquela areia branca e quente, o prazer foi tão intenso que ela prendeu a respiração. Aos poucos foi absorvendo aquela sensação nova, enquanto caminhava lentamente. O barulho das ondas aumentando à cada passo vencido, se misturava às batidas aceleradas do coração, concomitantemente ao espanto insuspeito do olhar. A praia vazia naquela manhã quase fria de agôsto,as vagas lentas e brancas contrastando com o verde azulado das águas mais profundas, e um céu acinzentado que teimava esconder o sol, parecia um quadro hà muito tempo pintado e esperando por ela, feito unicamente para aquele momento. Seus olhos virgens de mar olhavam aquela imensidão líquida, quase onírica e por mais que tentasse não permitir que pensamento algum viesse macular aquele momento único, um diabinho lhe perguntava onde estivera ao longo daqueles quarenta anos, o que fizera durante todo aquele tempo vivido, que justificasse o fato de nunca ter visto o mar?


Quando a primeira onda tocou seus pés dispersou aquele pensamento inoportuno e quase cruel e arregaçando a barra da calça, foi penetrando naquela água fria, sem sequer lembrar que não sabia nadar. Sentiu a força das ondas e então parou. Olhou longe ,até o limite de alcance de seus olhos e cada célula de seu corpo, cada átomo mesmo se perdeu. Por uma fração de tempo ela era água, era parte daquele infinito líquido-azul-primordial . E absoluto. Sim, ela sabia como ninguem mais, o gôsto quase sempre amargo de cada dia vivido, cada semana, cada mes daqueles quarenta anos. A grandeza do mar não caberia na vida qua levara até ali. Passado algum tempo, infinito intervalo não cronológico, ela voltou. Não mais crisálida.Impossível agora seria conciliar sua vida, sua antiga vida ,com a grandeza daquele mar. Aquele mar de possibilidades e infinitude, que agora fazia parte dela.
 

Foi saindo vagarosamente da água, num ritual de passagem silencioso e quase solene.
Era tempo de viver.

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