O terno

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Saí de Cássia, onde éramos treze funcionários, fui trabalhar na Agência-centro do Banco do Brasil, na capital paulista, onde trabalhavam quase dois mil funcionários. Lá me encaminharam para um departamento da gerência, incumbido da importação, do transporte e da distribuição de trigo entre os moinhos. Trabalhar no setor era quase privilégio, e minha designação decorreu do fato de possuir mais de oito anos de experiência na Carteira Rural do banco.


Uma das exigências que me fizeram foi a de trabalhar de paletó e gravata. E tudo correu normalmente por mais de seis meses. Foi então que um japonês, meu superior, avisou:


- Amanhã você precisa vir de terno.
- Por quê ?
- Ora, amanhã é seu aniversário.


E ele me explicou o costume: o gerente geral fazia questão de cumprimentar pessoalmente os aniversariantes do dia. E, lá na sua sala, ninguém entrava se não estivesse trajando terno.


Orientado, saí mais cedo do trabalho, entrei em loja de roupas feitas, experimentei modelos, esperei que a funcionária da loja fizesse acertos nas barras das calças, nas mangas do paletó. A despesa significou fortuna para quem vivia contando moedinhas.


No dia seguinte, lá pelas dezesseis horas, meu superior recebeu telefonema, chamou-me, conduziu-me até a antessala do Todo Poderoso Gerente. Ficamos ali, sentados, por cerca de quinze minutos. Aí, a recepcionista me convocou, conduziu-me até a porta, mandou-me entrar.


A porta se fechou às minhas costas, e fiquei numa sala imensa, diante do Todo Poderoso que, cabeça baixa, assinava papéis. Depois de segundos que me pareceram séculos, o homem levantou a cabeça, e dois olhos cansados me descobriram, e uma voz cansada inquiriu.


- O senhor...? Quem é?
- Sou o funcionário Cruz.
- Ah, sim...E o que deseja o colega?
- Me mandaram aqui pra receber cumprimentos.... Estou fazendo aniversário.


Talvez pela primeira vez no dia, a face do homem se humanizou. Ficou em pé, rodeou a enorme mesa, veio até mim, cumprimentou-me efusivamente.


- Meus parabéns...de verdade....meus parabéns.


Fez perguntas: tempo de banco, agência de origem, como me estava adaptando à cidade grande, outras bobagens. Respondia monossilábica e educadamente. Ele acompanhou-me até a porta, despediu, e voltamos meu chefe e eu para as funções burocráticas. O terno, para o fundo do armário.
 

Muitos anos depois, formandos me convidaram para paraninfar sua turma, lá na minha cidade natal.


Aceitei, honrado.


O Roberto Alfaiate fez adequações a um corpo com alguns quilos a mais e, finalmente, meu terno teve utilidade.


Entrei todo embonecado na festa de formatura.

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